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Patricia Lages

Análise: Vitimizar dá popularidade, mas deseduca população

Pessoas que se vitimizam em vez de assumirem suas responsabilidades são muito mais fáceis de serem controladas.

Patricia Lages|Do R7

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Assisti um quadro de TV sobre defesa do consumidor que só reitera o quanto a vitimização, ao mesmo tempo em que atrai público, deseduca as pessoas.

O caso era o seguinte: o pai foi financiar um celular para o filho que tinha acabado de arrumar o primeiro emprego e ainda não tinha cartão de crédito. Sendo assim, o pai aceitou usar seu cartão para parcelar a compra em 10 vezes sem juros, como tinham visto no anúncio da loja.


O celular custava R$ 1.999 — então, obviamente, seriam 10 parcelas de R$ 199,90. Só que, chegando lá, a coisa mudou totalmente de figura. O pai assinou uma porção de papéis — que nem ele e nem o filho leram — e recebeu um carnê com 18 parcelas de R$ 331, que nenhum deles sequer conferiu.

Chegando em casa, o filho mostrou a compra para a mãe, mas o que ela quis ver foi o carnê. Fazendo as contas, ela concluiu muito facilmente que eles haviam se comprometido a pagar R$ 5.958 e que, além do celular, haviam contratado um pacote de serviços para o carro e a casa e alguns seguros que nenhum dos dois sabia explicar. Por fim, a mãe mandou os dois voltarem à loja para que a compra fosse cancelada.


Como eles não conseguiram, chamaram o programa de TV para resolver a questão. É claro que o programa resolveu, afinal, nenhuma empresa quer má publicidade. Mesmo assim, a imagem da loja ficou arranhada, enquanto pai e filho saíram como “coitadinhos”. Mas, coitadinhos por quê?

Quem não sabe que os vendedores empurram de tudo para cima dos clientes? Quem não sabe que não se deve assinar nada sem ler? Como duas pessoas que sabem ler e fazer contas vão a um local pagar R$ 2.000 por um celular de ponta, mas voltam com uma conta praticamente três vezes maior sem nem ao menos perceberem?


Isso sem falar que o filho tinha arrumado um emprego havia dias, mas já estava fazendo uma compra comprometendo os próximos dez meses. Ele estava em período de experiência e, em questão de 45 ou 90 dias, poderia não estar mais empregado. E aí, quem iria pagar o financiamento? Iam culpar o empregador, a crise, o governo, a loja?

Entendo perfeitamente que o objetivo do quadro de TV é atender o consumidor e isso foi cumprido, mas foi o próprio consumidor que se meteu numa fria por não assumir a sua responsabilidade na hora da compra.


E o que eles aprenderam? Nada! E o que o espectador aprendeu? A ler um contrato, a fazer contas e a não permitir se deixar levar pela lábia dos vendedores? Claro que não! Aprenderam que quando forem enganados pelos vendedores devem chamar o programa de TV...

Esse é o tipo de cultura difundida hoje: a cultura do coitadismo, do vitimismo, de que o rico tirano oprime o pobre indefeso. Mas seria mesmo indefeso ou a coisa está mais para desatento e displicente? Afinal de contas, eles tinham todas as condições de analisar o que estava se passando, mas resolveram não pensar... Se as pessoas se fizessem mais responsáveis por seus atos e parassem de se vitimizar, teríamos, de fato, muito menos vítimas.

Patricia Lages

É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo, palestrante e conferencista do evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard. Apresenta quadros de economia na TV Gazeta e Record TV e é facilitadora da RME para o programa mundial WomenWill – Cresça com o Google.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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