Gaúcha Mariele Horbach transforma botecos cariocas em negócio em São Paulo
Da cozinha ao comando, ela construiu o Grupo Hungry a partir da própria experiência e aprendeu a fazer o negócio funcionar

Mariele Horbach faz botecos. E faz muito mais do que isso. Ela transformou a própria trajetória em um modelo de negócio baseado em cultura, execução e consistência.
A história começa no interior do Rio Grande do Sul, em Encantado, sem nenhuma tradição familiar de negócio nem uma estrutura que a empurrasse para o empreendedorismo.
O caminho apareceu depois, já no Rio de Janeiro, dentro da cozinha do restaurante da irmã. É nesse ambiente que ela aprendeu a operar. “O que eu sabia fazer era estar numa cozinha… Eu não sabia fazer mais nada.” É um ponto de partida direto. A cozinha não surge como vocação, surge como habilidade disponível.
O Rio de Janeiro também definiu o repertório. Boteco cheio, gente em pé, rua, barulho, fluxo constante. Esse ambiente ficou como referência concreta do que ela reconhecia como bom e a sua verdade.
Namorando André Silveira, sua mudança para São Paulo veio antes de qualquer plano. Era impossível manter o relacionamento entre duas cidades. “Não dá mais esse negócio de ponte aérea. Ou vai ou racha”, intimou ela.
E o trabalho passou a se reorganizar a partir dessa decisão. Tomaram a decisão de transformar o que sabiam fazer em renda. Ao mesmo tempo, ainda tentava outro caminho. “Estava bem concurseira… Resolvi me dedicar a isso.”
O empreendedorismo foi ganhando força dentro dessas alternativas. O primeiro bar nasceu nesse contexto. Abriram o boteco carioca Garota da Vila em 2012, na Vila Olímpia. “A gente queria trazer a nossa verdade. O que a gente gostava de verdade era dessa cultura.” O conceito vem da vivência e da percepção de uma oportunidade.
O fluxo crescente de cariocas em São Paulo, movidos pelo mercado financeiro, e a ausência de oferta para esse público começam a chamar atenção. “Olha a lacuna que tem esse público. Alguém tinha que explorar isso.”
A resposta do mercado não veio de imediato. “A galera meio que zombava da gente. ‘Mas carioca não gosta de trabalhar’, conta ela. Mas o bar abriu em um bairro caro, com um público exigente e uma operação ainda imatura. A falta de experiência em gestão apareceu no dia a dia. “Eu não sabia o que era mandar coisa pra contador, abrir CNPJ, a gente foi aprendendo na prática.”
Os primeiros anos seguem nesse ritmo, com três anos de prejuízo, pressão constante e dependência de capital externo. Não houve uma curva suave de aprendizado. O erro apareceu de forma estrutural, atravessando operação, financeiro e gestão.
A virada veio de uma decisão prática. André saiu da publicidade e passou a se dedicar integralmente ao negócio. A divisão de funções se definiu com mais clareza. Ela ficou na cozinha. Ele assumiu o salão. A operação ganhou presença integral dos sócios e começou a se ajustar. “A gente nunca teve plano B. A gente só tinha o plano A, que era dar certo.” A partir daí, o bar deixou de ser uma tentativa e começou a se organizar como trabalho.
O efeito apareceu ao longo dos anos seguintes. As dívidas são pagas, a operação estabiliza e o caixa começa a aparecer.
O conceito continua o mesmo. O que muda é a execução. Ela associa esse movimento a uma consistência maior entre o que o bar propõe e o que entrega. “O que fez a gente dar certo é que a gente sempre vendeu a nossa essência.”
Quando decidem expandir, o processo já é outro. Antes de abrir novas casas, eles param para entender o que deu errado no começo. Definiram os critérios, ajustaram custos, pensaram ponto e operação. O erro virou referência. E os novos bares nasceram em outra condição.
Com o tempo, o negócio ganhou estrutura. Surgiu o Grupo Hungry, reunindo diferentes casas e produtos próprios. A estratégia passa a girar em torno de experiência e cultura.
A comida segue central, mas não é o único elemento. Ambiente, comportamento e identidade entram juntos. A ideia inicial de “vender a verdade” começa a aparecer como posicionamento mais claro.
A pandemia criou um novo tipo de pressão. Redução de equipe, incerteza e decisões constantes. “Aquele momento nos forçou a sermos gestores mesmo.” Essa transição aparece na forma como ela passa a falar do negócio. A operação deixa de ser apenas execução e passa a envolver gestão de pessoas, tomada de decisão e visão de longo prazo.
“Mulheres podem ocupar qualquer espaço com talento, coragem e propósito”, encoraja Mariele. Essa experiência também molda a forma como ela lidera. Construir equipe, dividir responsabilidade e sustentar decisões em um ambiente de pressão contínua exige consistência.
Ao mesmo tempo, a vida pessoal entrou nesse equilíbrio. A maternidade apareceu como elemento que reorganiza prioridades e amplia o horizonte das decisões. O negócio deixou de ser apenas sobrevivência e passa a ser também construção de longo prazo.
“A melhor coisa foi a gente ter errado no início. Foi assim que a gente aprendeu.” O erro deixa de ser algo a evitar e passa a ser parte do processo. “O sucesso nunca é individual, ele se multiplica quando gera impacto.”
Estabelecimentos:
- Garota da Vila — @garotadavila_sp
- Bar Jobim — @barjobim_sp
- Garota da Chácara — @garotadachacara_sp
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