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De boia-fria ao maior império de bolos da Sodiê: a história de Cleusa Maria

Fundadora da Sodiê Doces relembra a construção de uma rede que nasceu em 20 m² e virou referência no franchising

Aprendiz de Cozinheira|Aline SordiliOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Cleusa Maria da Silva superou uma infância de pobreza e trabalho duro para se tornar a fundadora da rede de bolos Sodiê Doces.
  • A empresa começou em 1997 em um espaço de apenas 20 m² e cresceu para mais de 375 lojas no Brasil e nos Estados Unidos.
  • sucesso veio com inovação, como a venda de bolos em fatias, e pela expansão via franquias, após estudar o sistema de franchising.
  • Reconhecida como Empreendedor do Ano Brasil em 2024, Cleusa enfrentou desafios como a escassez de mão de obra, mas continua determinada em seu trabalho.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Cleusa Maria, fundadora da Sodiê Doces
Cleusa Maria, fundadora da Sodiê Doces Divulgação

Antes de se tornar um dos nomes mais conhecidos do franchising brasileiro, Cleusa Maria da Silva viveu uma realidade que ainda marca milhões de mulheres no país. Começou com trabalho braçal desde cedo, teve o estudo interrompido pela pobreza, a maternidade sob pressão e a sensação persistente de que a vida estava dada de antemão, como um destino herdado pelo contexto.

No caso dela, o roteiro parecia traçado por gerações. Filha de uma família muito pobre, terceira entre dez irmãos, Cleusa Maria cresceu vendo avós, pais e filhos repetirem o mesmo ciclo de trabalho pesado na roça. A diferença é que ela decidiu não aceitar aquilo como normal.


“Se minha vida mudou é porque, de alguma forma, aquela vida me indignava”, diz Cleusa Maria, em entrevista ao Aprendiz de Cozinheira. “Não me revoltava, mas em algum lugar eu sentia que, se eu buscasse de verdade, a minha vida podia mudar e a da minha família também.”

E esse pensamento marca a trajetória da fundadora da Sodiê. O ponto de partida não foi vocação romântica, paixão precoce pela confeitaria nem um plano de negócios desenhado com antecedência. Foi necessidade.


Houve também inconformismo, imaginação e uma capacidade rara de agir quando a oportunidade apareceu. Essa combinação, mais do que qualquer discurso motivacional, é o centro de sua história.

A empresa que ela criou oficialmente em 1997, em Salto, no interior paulista, começaria em um espaço de apenas 20 metros quadrados e acabaria se transformando em uma rede nacional com centenas de lojas.


A Sodiê iniciou sua expansão por franquias em 2007, chegou a 50 lojas franqueadas em 2009 e abriu sua primeira unidade internacional em 2019, em Orlando. Em 2024, Cleusa foi escolhida como vencedora do programa Empreendedor do Ano Brasil, da EY, e, em 2025, a Sodiê recebeu da ABF o prêmio de Franqueador do Ano.

Mas, para entender Cleusa, é preciso voltar ao começo. Ela tinha quase 13 anos quando o pai morreu. A mãe ficou com dez filhos pequenos. A solução foi todo mundo começar a trabalhar. A família passou a viver em dois cômodos, no fundo da casa dos avós, e as crianças acompanharam a mãe na rotina de boia-fria.


Cleusa cortou cana, carpiu soja, trabalhou no sol e na chuva. “Se nada mudasse, meu filho também continuaria nessa linha de sucessão”, pensou. A ruptura começou quando um tio, vindo de São Paulo, perguntou à mãe se ela queria “dar” uma criança para aliviar a carga de criar tantos filhos.

A resposta da mãe foi não imediatamente. “Meus filhos não são cachorro”, disse a mãe de Cleusa. A menina, porém, ouviu a conversa e enxergou uma saída. Pegou o endereço do tio e foi sozinha para São Paulo. “Tomei um grande perdido em São Paulo, mas consegui chegar na casa do meu tio”, lembra. Dois dias depois, já estava trabalhando como empregada doméstica em Pinheiros.

A casa da patroa, rica, foi também uma escola brutal de comparação social. Cleusa viu abundância pela primeira vez. Na casa pobre em que crescera, havia um sabonete para o mês inteiro. Na casa onde passou a trabalhar, tudo vinha em caixas fechadas, em quantidade, em excesso. “Era um outro mundo que eu nem sabia que existia.”

Cleusa Maria, fundadora da Sodiê Doces
Cleusa Maria, fundadora da Sodiê Doces Divulgação

Pediu à patroa para sair mais cedo e estudar. Tinha só até a quarta série. Terminou o fundamental trabalhando de dia e estudando à noite. Depois, conseguiu uma vaga de recepcionista. A mudança parece pequena, mas para ela significou menos subserviência, mais autonomia, mais chance de redesenhar seu caminho.

No interior paulista, quando trabalhava em uma pequena empresa, conheceu Dona Rosa, esposa do gerente. Ele abriu um negócio próprio, adoeceu e morreu pouco depois, vítima de câncer. Dona Rosa fazia bolos. Cleusa a ajudava em pequenas tarefas e, num momento de maior aperto, ouviu da chefa o pedido para assumir parte daquela clientela.

No início, ela recusou. Não tinha dinheiro sequer para comprar uma batedeira. A máquina custava metade do seu salário. Também nunca havia feito bolo. A insistência de Dona Rosa foi decisiva e coincidiu com uma emergência. Dona Rosa havia quebrado a perna e pediu para produzir um bolo de família. Cleusa topou aprender.

Passou a noite seguindo instruções, montou o recheio, finalizou a encomenda e ouviu no dia seguinte uma frase que guarda até hoje: “Você é uma pessoa abençoada. Você fez em um dia o que eu levei dez anos para aprender.”

Dona Rosa então apareceu com a batedeira nas mãos. “Pague quando você puder”, disse. E prometeu comprar bolos para os funcionários e repassar clientes. Cleusa aceitou.

Começava ali uma rotina que ela mesma descreve como desumana, mas necessária. Trabalhava das sete da manhã às cinco da tarde. No almoço, corria para casa, assava um bolo, voltava ao serviço, recheava à noite, entregava de madrugada. A mãe ajudava com brigadeiros e recheios.

O filho pequeno ficava entre uma tarefa e outra, no centro daquela equação impossível de maternidade, renda e exaustão. “Durante dois anos eu fiz isso. Trabalhava na empresa, fazia meus bolos em casa, cuidava do meu filho e da vida.”

Até que o cansaço venceu. Ela pediu demissão e abriu a primeira loja, em Salto, com 20 metros quadrados. Sem carro, levava os bolos a pé. Assava em casa, vendia na loja, montava balcão, atendia cliente, fechava caixa. “Eu trabalhei cinco anos sem folgar um único dia”, conta. “Eu trabalhava de sol a sol, ou até um pouco mais.”

Cleusa não sonhava com uma rede nacional. Sonhava com três coisas objetivas: dar uma vida melhor ao filho, tirar a mãe da boia-fria e ter uma casa para morar. “Era uma obsessão”, afirma. “Eu trabalhava incansavelmente com esses três objetivos.”

O primeiro deles foi a casa. Fez uma de dois quartos, sala e cozinha. “Eu pensava até na importância de ter um sofá, porque eu nunca tinha tido um.” Levou cerca de dez anos para concluir a construção.

Mais do que falar sobre empreendedorismo puro e números corporativos, conversar com Cleusa é muito sobre a falta de alternativa emocional para o fracasso. “Eu não tinha o direito de pensar em desistir”, diz. “Se eu desistisse, seria pior. Eu voltaria a trabalhar de funcionária e não seria melhor do que eu ter meu próprio negócio. Eu não podia pensar em desistir. Eu não tinha essa alternativa”, conta ela.

A mãe foi tirada do trabalho braçal com a ajuda de uma bala de coco. Cleusa viu Ana Maria Braga ensinar uma receita na televisão, pediu à mãe que aprendesse, insistiu até que desse certo e passou a vender as balas junto com os bolos.

“Minha mãe queimou as mãos, mas eu insisti”, conta. “Até que um dia ela estava fazendo uma bala maravilhosa.” Foi assim que deixou de ser boia-fria. A casa comprada para a mãe viria depois. “Um dia eu a vi sentada na varanda, numa poltrona, e pensei: eu ganhei minha vida.”

Se a origem da empresa é uma história de sobrevivência, o crescimento do negócio já revela intuição comercial apurada. Sem verba de marketing, Cleusa encontrou no próprio produto a melhor propaganda. Sua grande sacada foi vender bolo em fatia, algo incomum na época. Em vez de obrigar o cliente a levar um bolo inteiro, ela permitia que famílias sentassem à mesa e provassem sabores diferentes. “O meu grande marketing eram os próprios clientes”, resume. “Quando iam fazer um aniversário, já tinham na memória o produto que haviam consumido em fatias.”

A ideia tinha base em experiência própria. Antes de abrir a loja, ela foi a Jundiaí conhecer uma confeitaria famosa sobre a qual ouvira falar na televisão. Queria comprar um pedaço de bolo para experimentar.

Não tinha dinheiro para isso porque a loja só vendia o bolo inteiro. Orientaram que ela fosse ao centro da cidade, onde outra pessoa revendia a marca em fatias. Ela comprou, mas quando chegou em casa, duas das quatro fatias estavam azedas.

A lição desse dia veio em dose dupla. Vender em pedaços ampliava o acesso e a lembrança do cliente, mas terceirizar a responsabilidade pelo produto podia destruir uma marca. “Eu não lembro o nome de quem me vendeu o bolo ruim”, diz. “Mas eu lembro de quem era a marca.”

Por isso, decidiu que não teria revenda externa. Até hoje, a Sodiê trabalha com produção dentro das lojas ou em cozinhas centrais do próprio franqueado, nunca com um terceiro independente revendendo o produto. A rede também mantém cardápio padronizado e insumos homologados.

A expansão via franquias veio por oportunidade, não por planejamento. Um cliente, passou meses insistindo para abrir uma unidade em São Paulo. Cleusa sequer conhecia a palavra “franchising”.

Um dia, pegou um ônibus, foi à ABF (Associação Brasileira de Franchising), fez curso, comprou livros e decidiu estudar o sistema. Ligou para o interessado e deu a resposta: ele seria o primeiro franqueado. “Dois anos depois eu tinha 50 lojas.”

Nem esse salto aconteceu sem conflito. O medo de que alguém vendesse a própria casa para investir na marca a atormentava. Para uma mulher cujo maior sonho era justamente ter uma casa, a possibilidade de outra pessoa perdê-la em seu negócio era quase insuportável. “Isso me fazia muito mal.”

Aprendeu a separar a sua responsabilidade, de estrutura, suporte e método, da responsabilidade do franqueado, de operação e gestão. A fala é reveladora porque mostra uma empreendedora pouco seduzida pela retórica da expansão a qualquer custo. Seu discurso é pragmático. “Cada centavo que eu ganhava eu investia na empresa para que ela pudesse ter alicerce e dar bom suporte às pessoas.”

Mas Cleusa precisou mudar o nome da rede, que ainda se chamava Sensações quando veio o problema de registro, por causa da marca Sensação, da Nestlé. Cleusa conta que já tinha 74 lojas quando a advogada avisou que a situação havia se agravado.

O novo nome nasceu de forma doméstica, quase por acaso, juntando as sílabas iniciais de Sofia e Diego, filhos de Cleusa. Veio então uma das travessias mais duras da empresa: trocar fachadas, tapetes, comunicação visual, identidade inteira. “Passei quase quatro anos no vermelho absoluto”, afirma. “Cada centavo que eu ganhava era para pagar a troca de marca.” Ainda assim, a Sodiê Doces atravessou a crise e continuou crescendo.

Os reconhecimentos recentes colocaram essa história num novo patamar. Em 2024, Cleusa venceu o programa Empreendedor do Ano Brasil, da EY. A rede foi descrita pela consultoria, à época, como uma operação com mais de 375 lojas no Brasil e duas nos Estados Unidos.

No mesmo período, a empresa foi eleita Franquia do Ano no prêmio As Melhores Franquias do Brasil, da Pequenas Empresas & Grandes Negócios. Em 2025, recebeu da ABF o prêmio de Franqueador do Ano. “Peguei todos os prêmios em 2024 e 2025. Deus foi muito generoso comigo.”

Cleusa diz não ter sofrido preconceito por ser mulher. Na verdade, ela nem teve tempo de pensar nisso. “Se houve, eu trabalhei tanto, mas tanto, que eu não percebi.” Lembra apenas de um episódio, vindo de outra mulher, que desistiu de comprar uma franquia ao descobrir que ela não tinha faculdade. “Não me abalou.”

As maiores dificuldades hoje estão no que Cleusa sempre teve como valor central. Encontrar mão de obra para trabalhar. A dificuldade para contratar hoje afeta toda a cadeia, da produção à gerência, da operação ao suporte e já ameaça o funcionamento regular de lojas aos domingos. “O trabalho traz dignidade”, resume.

“Quem não sabe onde quer chegar não chega a lugar nenhum”, diz ela. A frase soa como conselho de autoajuda, mas, na boca de Cleusa, ganha outro peso. Porque vem de quem saiu de uma casa onde faltava sabonete, serviu café, aprendeu a fazer bolo na urgência, carregou forma a pé para uma loja de bairro e transformou um pedaço de bolo em ferramenta de expansão.

Num país que costuma romantizar a superação sem discutir suas estruturas, ouvir Cleusa é lembrar que empreendedorismo, muitas vezes, não nasce do sonho. Nasce do limite. E, quando encontra disciplina, inteligência prática e oportunidade, pode acabar mudando uma sucessão inteira.

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