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Luiza Arcuschin troca Berlim para criar os drinks sem álcool da Yuna

Empreendedora transforma receitas artesanais de coquetelaria em uma bebida pronta para beber, feita com frutas e botânicos brasileiros

Aprendiz de Cozinheira|Aline SordiliOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Luiza Arcuschin, após uma carreira em Berlim, cofundou a Yuna no Brasil, criando drinks sem álcool com frutas e botânicos brasileiros.
  • A Yuna oferece bebidas prontas para beber, sem adição de açúcar, destacando-se pela complexidade e sabor adulto.
  • O desenvolvimento do produto envolveu desafios como regulação, escolha de ingredientes e definição de embalagem.
  • A marca busca espaço no mercado brasileiro, competindo com bebidas premium e promovendo experiências em eventos e e-commerce.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Luiza Arrcuschin, sócia da empresa de bebida sem álcool Yuna
Luiza Arcuschin, sócia da empresa de bebida sem álcool Yuna Divulgação

No dia de envase, Luiza Arcuschin, CEO e cofundadora da Yuna, sai das planilhas e vai para Suzano acompanhar o processo que faz as bebidas sem álcool chegarem à lata. Para quem vinha de estratégia, branding e consultoria, o novo negócio começou a mostrar sua parte menos abstrata. “Eu nunca tinha empreendido um produto antes”, diz Luiza.

Antes da Yuna, ela já tinha empreendido serviços. Isso significava vender método, organização, planejamento, relacionamento com cliente, marca, visão financeira. Com bebida, a conta mudou. Entraram estoque, validade, fornecedor, custo fixo, classificação regulatória, embalagem, envase, perda de insumo e distribuição. “Eu já tinha empreendido serviços, e é diferente. Você tem que lidar com estoque, produto com prazo de validade, fornecedores, custos fixos”, afirma.


A Yuna nasce desse encontro entre o que Luiza sabia fazer e o que precisou aprender. A marca tem três sócios. Dhyan Mesquita, mixologista e empreendedor da área de alimentos e bebidas há mais de 20 anos, lidera as receitas. Luiza e Burak Gorgulu voltaram ao Brasil depois de mais de uma década em Berlim, trazendo experiência em branding, inovação e construção de negócios.

O produto que decidiram colocar no mercado é um drink sem álcool, pronto para beber, levemente gaseificado, sem adição de açúcar, feito com frutas e botânicos brasileiros.


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Luiza se formou em Administração pela FGV-EAESP, fez MBA na ESMT Berlin e construiu uma carreira entre negócios e criatividade. Trabalhou com marketing de cultura na Red Bull, foi associada da Escola São Paulo, fundou a Dream Facilitation, consultoria voltada à estratégia e execução de projetos, passou pela Nama e integrou a MetaDesign, em Berlim, na área de desenvolvimento de negócios.

A relação com negócio próprio apareceu antes da carreira formal. Aos 8 anos, ela vendia bijuterias na rua com uma amiga. A amiga cuidava da criação. Luiza ficava com o dinheiro. E essa divisão reaparece na Yuna, com seu interesse por projeto novo, gosto por ideia em construção e atenção à conta que precisa fechar.


Berlim foi o principal deslocamento da trajetória. Luiza morou 12 anos na cidade. Ali, viu marcas sem álcool ocuparem um espaço que no Brasil ainda era menos visível: bebidas com repertório de coquetelaria, sem cair no universo do refrigerante, do refresco ou do suco. A volta ao Brasil começou por motivo pessoal. Grávida da primeira filha, durante a pandemia, ela veio passar uma licença-maternidade. Nesse período, conheceu Dhyan e provou as versões artesanais do que depois viraria Yuna. “Eu morava na Alemanha. Vim para o Brasil numa licença-maternidade, conheci o Dhyan e experimentei já naquela época as Yunas artesanais”, lembra.

A bebida ainda não tinha fábrica, lata, marca pronta ou plano de distribuição. Dhyan preparava versões artesanais em eventos e ativações da EZK, sua empresa de coquetelaria. Eram sodas, na descrição de Luiza, com um toque a mais. Tinham corpo, amargor, acidez, aroma e permanência.


O mercado brasileiro de 2020 ainda parecia estreito para essa proposta. A referência que ela trazia da Alemanha indicava outra possibilidade: uma bebida sem álcool com alma de coquetel.

A decisão de entrar no negócio veio quando essa percepção encontrou uma falta concreta. Luiza olhava para as opções disponíveis e via um intervalo mal atendido entre o refrigerante e o coquetel alcoólico.

“Estava em falta um produto que entrega complexidade e prazer em ter uma bebida que te acompanha nos momentos de celebração, de festividades, de trocas”, diz. A Yuna deveria ter, nas palavras dela, “um sabor adulto, um sabor maduro, um sabor brasileiro”.

A construção desse sabor virou o centro do projeto. Dhyan formula o problema técnico de maneira direta no material de lançamento: “Um drink sem álcool exige ainda mais construção do que um alcoólico. Quando retiramos o álcool, estamos tirando estrutura, profundidade, a alma que sustenta o drink”. A resposta veio da mixologia, com extratos e botânicos combinados para dar acidez, dulçor, amargor, textura e final de boca.

O portfólio inicial tem três latas. O Mate Ginger Ale é o drink de entrada, porque parte de referências familiares ao paladar brasileiro: mate, gengibre e tangerina. O Cajá Bitters segue por um caminho mais amargo, com cajá, amburana, laranja amarga, vermute sem álcool e pimenta. O Rubi Spritz combina jabuticaba, amora, infusões botânicas, ginseng e pimenta rosa. A marca informa que trabalha com 32 ingredientes, em sua maioria nacionais.

Luiza usa o Rubi Spritz para explicar a reação que a marca começou a observar nas primeiras provas. Pela lista de ingredientes, muita gente espera uma bebida próxima de frutas vermelhas. No copo, aparecem picância, corpo e final prolongado. “A cada gole que você vai degustando, ele vai se apresentando cada vez mais”, diz.

A lata não foi escolhida apenas pela aparência. A gaseificação já fazia parte das receitas artesanais de Dhyan, pelo frescor e pela adequação ao Brasil. A equipe avaliou outros formatos, inclusive concentrado em garrafa de vidro. A escolha final foi a lata de 269 ml, por transporte, praticidade, controle da experiência pronta para beber e presença em eventos e festivais. “Você não precisa misturar com gelo, não precisa colocar limão, alecrim. Ele é um drink totalmente pronto, a experiência está na sua mão”, afirma Luiza.

O tamanho também entrou na decisão. Luiza não queria um latão grosso, difícil de segurar e menos adequado a uma bebida que deve ser tomada gelada, aos poucos. A Yuna recomenda o consumo bem gelado, de preferência em copo com gelo. A ocasião imaginada não é a da bebida aberta para matar sede. É a do copo que acompanha a conversa. “É um drink que fica na sua mão. Ele vai ficando e vai te acompanhando”, diz.

A identidade visual foi criada por Karen Hofstetter, brasileira baseada em Berlim, do estúdio Nama. Luiza já tinha trabalhado com ela em outros projetos. Segundo a empreendedora, a marca foi aprovada logo na primeira apresentação.

A embalagem demorou mais. Transportar logo, cor e textura para uma lata pequena exigiu testes de rótulo, acabamento e gráfica. Os sócios foram pessoalmente escolher o Pantone, enquanto as tintas eram misturadas à mão. A bebida chegaria ao mercado como produto industrial, com decisões de detalhe ainda muito próximas dos fundadores.

Na fábrica, a proximidade teve outro motivo. A produção é terceirizada, mas os sócios acompanham o envase de perto. A bebida trabalha com polpas e extratos naturais, e isso muda o comportamento dentro dos tonéis. Parte da matéria-prima decanta.

Na primeira rodada de testes, a perda de extrato e insumo foi maior que a esperada. Na segunda, a equipe ajustou a ordem de mistura, a remistura e o momento de entrada dos extratos. A meta é dominar o processo para escalar sem depender da presença dos fundadores a cada envase.

A operação é pequena. Luiza fala em cinco pessoas no dia a dia: três sócios e mais duas frentes próximas ao negócio, uma ligada a ativações e produto, outra a comercial e distribuição.

Assessoria, marketing e outros apoios entram como parceiros terceirizados. Esse tamanho coloca os fundadores em contato direto com áreas que empresas maiores separam por departamento: fábrica, embalagem, venda, conteúdo, varejo, evento e atendimento.

A regulação entrou cedo na construção. A Yuna precisou ser enquadrada como bebida mista, com definição tributária e NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul). Luiza diz que a empresa passou tempo avaliando ingredientes, classificação e registro, com apoio de consultorias regulatórias. A marca informa ter seguido protocolos do Ministério da Agricultura e usado ingredientes regulamentados e aprovados.

Para Luiza, que voltou de um país onde a informação de produto fazia parte da rotina de consumo, o cuidado regulatório tem um lado profissional e um lado doméstico. “Eu tenho duas filhas. Eu não quero estar dando nada nocivo para elas”, diz.

O preço premium, segundo ela, vem da formulação, dos ingredientes, do processo, da embalagem e da categoria nova. A dificuldade está em fazer o consumidor entender isso antes da compra.

A marca começou pelo e-commerce, com entrega nacional, e incluiu eventos, festas e pontos físicos selecionados em São Paulo. O material de lançamento informa presença no C6 Festival no primeiro mês. Em paralelo, a equipe conversa com bares, restaurantes, hotéis e varejo premium.

Luiza aprendeu rápido que bebida precisa estar ao alcance. “A distribuição é chave nesse mercado”, afirma. Ela cita disputa por gôndola, margens, taxas e concorrentes indiretos.

A Yuna disputa atenção com refrigerantes premium, águas saborizadas, bebidas funcionais, kombuchas, cervejas zero, vinhos sem álcool e mocktails de bar. Muitas pessoas ainda querem provar antes de comprar uma caixa com seis ou doze unidades. Por isso, o físico não aparece como detalhe. Ele ajuda a explicar a categoria.

O olhar de mercado de Luiza vem de pesquisa e observação. A equipe provou mais de 50 bebidas sem álcool de marcas da Alemanha, Inglaterra, França, Estados Unidos e Itália. Sempre que alguém mencionava uma novidade em outro país, ela tentava trazer uma garrafa ou uma lata para análise.

Em casa, conversava com familiares mais jovens para entender a redução do álcool em contextos de socialização. Na leitura dela, entram saúde, informação disponível e o efeito das redes sociais sobre a exposição pública da embriaguez.

A Yuna fica mais fácil de entender quando a narrativa sai das palavras grandes e encosta nos detalhes: o mate como porta de entrada, o cajá como amargor, a amburana como madeira brasileira, a jabuticaba com pimenta rosa, a lata pequena, o sedimento no tonel, a escolha manual da cor, a consultoria regulatória, o copo com gelo, o festival, a mercearia, o bar. Esses detalhes explicam melhor a marca do que qualquer discurso sobre comportamento contemporâneo.

O nome segue a mesma lógica. Luiza associa Yuna à ideia de união pela presença de “una” dentro da palavra. Ela não trata isso como explicação etimológica. O sentido aparece na cena de consumo: uma mesa onde alguém bebe álcool, outra pessoa prefere não beber, e a bebida sem álcool não entra como concessão. “Você está bebendo uma Yuna e ponto”, diz.

A volta ao Brasil juntou vida pessoal e decisão profissional. Luiza deixou uma carreira estável no grupo Publicis, na Alemanha, para empreender com Dhyan e Burak. O risco não ficou no discurso. Ele apareceu no produto, no caixa, na fábrica, na gôndola e na necessidade de fazer uma categoria nova caber na rotina do consumidor. “Larguei minha carreira na Alemanha, que era uma coisa segura, estável, com uma ótima reputação, para voltar para o Brasil e empreender”, afirma.

Poucas semanas depois do lançamento, ela já falava em retornos positivos, especialmente de consumidores surpreendidos pela complexidade das receitas. Ainda era uma percepção inicial, sem tamanho de mercado suficiente para conclusões maiores. Para uma bebida nova, já era um dado de trabalho: a prova fazia diferença.

Ao falar para outros empreendedores, Luiza volta ao que aprendeu antes da Yuna e ao que a Yuna lhe cobrou. Não recomenda entrar em uma categoria apenas porque ela está em alta. Pede vínculo real com o produto, estudo de mercado, conversa com gente da indústria e atenção aos parceiros. “Escolha bem os seus sócios. Os seus sócios são para sempre, é um casamento sem a questão afetiva”, diz.

A próxima etapa da Yuna será menos dependente da novidade e mais dependente da repetição. Repetir a receita com estabilidade. Repetir o sabor em escala.

Repetir a experiência no e-commerce, no evento, no varejo e no restaurante. Fazer uma bebida sem álcool parecer adulta no primeiro gole já é difícil. Manter o mesmo padrão quando a produção cresce é o teste que vem depois.

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