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Juliana Penteado constrói confeitaria premiada em Lisboa

Entre técnica francesa, memória brasileira e pesquisa da doçaria portuguesa, a chef criou uma marca que cresceu da produção doméstica para a La Liste 2026

Aprendiz de Cozinheira|Aline SordiliOpens in new window

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Juliana Penteado, chef confeiteira paulistana que mora em Portugal, onde ganhou o prêmio internacional La Liste 2026 pela Juliana Penteado Pastry
Juliana Penteado, chef confeiteira paulistana que mora em Portugal, onde ganhou o prêmio internacional La Liste 2026 pela Juliana Penteado Pastry Divulgação

O prêmio que levou Juliana Penteado a Paris em junho de 2026 tinha uma cozinha de casa no começo da conta. A confeiteira paulistana radicada em Lisboa, criadora da Juliana Penteado Pastry, recebeu da La Liste o “Pastry Talent of the Year 2026”, segundo o press release da premiação.

Mas seis anos antes, a marca cabia no espaço doméstico onde ela produzia durante a pandemia, sem vitrine, sem equipe estruturada e sem certeza de que o público compraria doces pouco doces, coloridos, feitos com frutas da estação e óleos essenciais culinários.

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“Este prêmio representa uma consolidação de 15 anos de trabalho”, disse Juliana. “Trabalhar com óleos essenciais culinários não é algo comum, e ver essa abordagem reconhecida internacionalmente significa que a trajetória faz sentido.”

Antes de alugar uma cozinha, contratar equipe e abrir uma loja em Lisboa, Juliana passou um ano produzindo dentro de casa. Era o início da pandemia. Juliana já tinha técnica, formação, repertório de cozinha profissional e nenhuma garantia de que o público compraria doces pouco doces, coloridos, feitos com frutas da estação e óleos essenciais culinários.

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A marca começou. “Fiquei um ano produzindo dentro da minha casa, até entender que tinha uma aceitação. Aí veio o próximo passo”, conta.

A empresária paulistana se formou em Gastronomia pela Anhembi Morumbi, estudou Nutrição na São Camilo e trabalhou por seis anos no Fasano e no catering da Casa Fasano. Também passou pelo Le Cordon Bleu, em Londres.

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Sabia cozinhar, organizar produção, lidar com padrão alto de serviço. A confeitaria entrou depois, quando decidiu sair do Brasil. “No Brasil eu trabalhava com cozinha, não trabalhava com confeitaria. Resolvi ir para a área da confeitaria quando me mudei para a Europa.”

A mudança foi profissional. Juliana saiu do Brasil em fevereiro de 2018, ficou três meses em Paris e seguiu para Lisboa. O plano inicial era permanecer na França, trabalhando em restaurante, mas o plano não se sustentou. E Lisboa apareceu como caminho possível, primeiro por trabalho, depois por escolha de vida.

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Na capital portuguesa, ela entrou no 100 Maneiras, restaurante do chef Ljubomir Stanisic, num período de exigência alta. Ficou um ano. A experiência deu a ela uma resposta prática sobre o tipo de cozinha em que queria trabalhar.

Reconhece o aprendizado, a intensidade, a carga horária, a dinâmica de serviço, mas queria o próprio projeto. “Era importante viver a experiência para poder dizer ‘não quero trabalhar com restaurante’.”

Depois de sair do 100 Maneira, ela fez cursos ligados à imagem da comida, como food photography e food styling. Tinha decidido morar em Portugal, só que ainda não encontrava uma cozinha ou marca em que se reconhecesse. A resposta veio pela estrada.

Juliana criou a Rota Amarela, uma viagem pelo país para entender a doçaria portuguesa a partir da gema de ovo, das receitas de família e das histórias contadas por quem fazia os doces. “Eu percorri Portugal de norte a sul para conhecer o país por meio da doçaria portuguesa, por meio da gema de ovo.”

A viagem virou pesquisa de campo. Ela ouviu doceiras, entrou em conversas sobre receitas guardadas, viu a importância da herança familiar e percebeu que aquele repertório tinha uma força que não cabia numa leitura turística.

Para uma brasileira tentando abrir espaço em Lisboa, a Rota Amarela também funcionou como modo de chegada. “Quando a gente mora em país diferente, a palavra de ordem é o respeito”, diz. “A gente entra meio pedindo licença e vai encontrando nosso espaço.”

Esse respeito explica parte da Juliana Penteado Pastry. A marca nasceu do encontro entre técnica francesa, memória brasileira e leitura da doçaria portuguesa.

Juliana aprendeu a olhar para Portugal antes de tentar vender um doce em Lisboa. A gema, as frutas, a sazonalidade, a luz da cidade e o uso de aroma entram nesse vocabulário.

A cor veio de Lisboa. Juliana associa São Paulo ao cinza e Lisboa à luz. Quando fala da marca, volta sempre ao visual, à harmonia, à vitrine, à forma como o doce chega primeiro pelos olhos. “Quando as pessoas me perguntam o que eu mais gosto de Portugal, o que eu mais gosto de Lisboa, eu digo sempre: é o colorido.” Nos doces, esse colorido aparece em massas, cremes, frutas, flores e perfumes.

Os óleos essenciais culinários se tornaram uma assinatura da confeitaria. Juliana usa esses ingredientes como aroma e construção sensorial, sem vender promessa de saúde. “A gente fala da cozinha como intenção.”

A intenção muda conforme o doce, a data, a fruta e a história que ela quer contar. Em uma semana dedicada ao Dia da Mulher, por exemplo, ela cita gerânio, rosas, flor de laranjeira, pimenta rosa e gengibre. Em outras criações, bergamota, lavanda ou flor de coentro aparecem em doses pequenas.

A gota precisa ser controlada. Óleo essencial em confeitaria exige cálculo: se vai ao forno, perde aroma; se encontra lácteo, reage de um jeito; se acompanha fruta, precisa ampliar o sabor, não cobrir. Juliana volta a uma regra simples. “Um doce com maracujá tem que ter gosto de maracujá.” A frase parece óbvia. Dentro de uma vitrine muito visual, ela funciona como correção de rota. O doce precisa ser bonito e precisa ser gostoso. A aparência chama. O sabor sustenta.

A sazonalidade manda no cardápio. Juliana conta que queria usar figo em uma sessão de fotos e no menu do mês, mas a fruta não estava disponível no tempo necessário. A solução foi respeitar a estação. “Quem rege tudo é a estação, é a sazonalidade.” A produção segue a mesma lógica. Os doces são feitos pela manhã para serem vendidos no mesmo dia. Massa crocante, fruta presente, acidez, doçura, amargor e textura entram como rotina de cozinha, compra e planejamento.

O negócio cresceu em etapas curtas. Primeiro, a produção dentro de casa. Depois, um espaço pequeno. Quando a cozinha deixou de comportar a demanda, veio uma estrutura maior.

A loja na Calçada da Estrela consolidou a marca em Lisboa, com vitrine, atendimento e contato direto com o público. A confeitaria passou a integrar o Guia Louis Vuitton Lisboa em 2022. A vitrine virou o lugar onde a marca ganhou corpo, com doces que mudam de acordo com a estação, com os óleos essenciais e com a pesquisa visual da chef.

A operação continua pequena e muito concentrada na fundadora. Juliana diz ter três pessoas na cozinha, dois estagiários e duas pessoas no atendimento. O restante passa por ela. “Eu faço tudo. Faço rede social, faço a parte administrativa, faço as compras, falo com o cliente.”

Essa centralização tem preço. Empreender fora do país de origem exigiu reaprender regras sanitárias, leis trabalhistas, rotinas fiscais, fornecedores e formas de negociação. A formação em Nutrição ajudou na lógica de higiene e segurança alimentar, só que Portugal tinha outros órgãos, outras normas e outra cultura administrativa.

Juliana aplica cautela, escuta, sensibilidade para perceber o cliente e disposição para mudar o caminho quando o negócio pede. A marca nasceu durante a pandemia, testou produto sem loja, abriu ponto físico, ganhou público e agora passa por rebranding.

“A marca tem cinco anos. Hoje estou fazendo um rebranding, revendo muitas coisas para poder renascer de outra forma”, diz. A razão é concreta: a empresa que começou de um jeito passou a depender de outras frentes de receita.

A loja segue importante como presença pública. É vitrine, ponto de encontro, lugar onde o cliente vê o doce, pergunta, prova, volta. A conta, segundo Juliana, não fecha só com balcão. “Loja de rua dá um contato direto com o cliente. Rentabilizar apenas de loja de rua é muito difícil.”

A partir daí, a marca passou a olhar com mais força para eventos, catering, casamentos e projetos corporativos. Nesse campo, Juliana diz fazer trabalhos com marcas como Dior e Chanel, recebendo moodboards, flores, aromas e cores para criar doces dentro do universo de cada lançamento. “Isso realmente me estimula”, diz. “É onde a criatividade é construída com outras mãos.”

A televisão ampliou o alcance. Em 2024, Juliana entrou como jurada do MasterChef Portugal, ao lado de Rui Paula e Pedro Pena Bastos. Para uma brasileira à frente de uma confeitaria autoral em Lisboa, a exposição teve efeito direto no público local. “Eu fui jurada do MasterChef daqui, da temporada de 2024 para 2025. Aí a gente teve um público português que aderiu um pouco mais e deu mais credibilidade para o meu trabalho.”

Antes do programa, a clientela já era misturada. Juliana fala de franceses que reconhecem a técnica, brasileiros que chegam pela origem comum, estrangeiros que circulam por Lisboa e portugueses que se aproximaram com mais força depois da televisão.

O cardápio exige explicação. Doces menos doces, óleos essenciais e uma estética distante da doçaria portuguesa clássica pedem tempo de aceitação. “Você educar o consumidor dessa história toda não necessariamente foi muito bem aceito”, diz. O trabalho foi insistir, repetir, deixar o público provar.

A leitura que Juliana faz de Portugal passa pela mesa. Ela vê no país uma relação forte com alimento, vinho, sazonalidade e território. Essa cultura ajudou a moldar a confeitaria. O consumidor português, segundo ela, respeita a terra e reconhece o tempo das frutas.

Ao mesmo tempo, a marca precisou ajustar linguagem, produto e venda ao mercado local. A base francesa continuou. O toque brasileiro ficou. Portugal entrou como matéria concreta: estação, gema, tradição, luz, cliente.

O crescimento que ela imagina agora passa por projetos fora da loja. Juliana fala em pop-ups em São Paulo e em outras cidades, sem tratar isso como volta definitiva ao Brasil. O interesse é levar a marca para outros públicos e testar novas leituras do trabalho. “Tenho muita vontade de levar o projeto para outras pessoas experimentarem e criarem a sua própria leitura do trabalho.”

A história da Juliana Penteado Pastry se organiza por deslocamentos e ajustes. São Paulo deu formação e serviço. Londres consolidou técnica. Paris mostrou um plano que não continuou.

Lisboa ofereceu trabalho, limite, mercado e matéria-prima cultural. A pandemia forçou um teste pequeno. A loja deu corpo à marca. Eventos e catering abriram outra conta.

O MasterChef aproximou o público português. O Guia Michelin e o Guia Louis Vuitton levaram seu nome a outros circuitos. A La Liste colocou a confeitaria em Paris. O doce que aparece na vitrine nasce dessa sequência: estudo, estrada, restrição, tentativa, venda e revisão.

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