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Isabella Fernandes desafia o mercado da proteína pronta com a Costelata

CEO transforma costela em lata em negócio de escala com chegada ao food servisse e diversificação da linha de produtos

Aprendiz de Cozinheira|Aline SordiliOpens in new window

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Isabella Fernandes, CEO da Costelata
Isabella Fernandes, CEO da Costelata Divulgação

Quando Isabella Fernandes decidiu levar uma costela bovina em lata para o varejo, a embalagem era parte da solução de uma boa ideia para um mercado que estava já mudando para as proteínas e novos hábitos alimentares.

A ideia era simples de dizer, mas difícil de vender em 2023. Como explicar uma proteína pronta e natural, de qualidade, capaz de viajar e durar sem depender da estrutura de uma cozinha convencional.


“Costelata veio da costela em lata”, diz Isabella, hoje à frente da empresa criada com o pai, Fernando Fernandes. O nome explicava o produto, mas não resolvia o preconceito. No Brasil, lata ainda lembra alimento inferior, rótulo confuso e ultraprocessado. A Costelata precisava provar que, naquele caso, a lata era técnica de conservação.

A Costelata entrou no mercado em 2024 e havia sido pensada para atender operações com dificuldade logística, como locais de difícil acesso e abastecimento em situações semelhantes às do Exército.


Já Isabella chegou a esse mercado por um caminho improvável. A primeira experiência de negócio veio aos 16 anos, com uma marca de roupas. Depois, fez faculdade de empreendedorismo e chegou a considerar uma marca de joias.

A família vinha de gerações ligadas à advocacia. O pai advogado também tem, segundo ela, um lado criativo. E foi com ele que Isabella entrou no universo das proteínas.


“Empreendedorismo vem muito de uma mistura de criatividade com disciplina”, afirma. No caso de Isabella, essa mistura começou na moda, passou por ideias de licenciamento e foi parar em uma indústria de carne.

O deslocamento profissional não ocorreu por afinidade prévia com açougue, charcutaria ou food service. Veio de uma oportunidade concreta que foi conhecer o criador de uma costela em lata e enxergar no produto uma solução logística.


A primeira entrada comercial foi pelo varejo. Isabella afirma que o primeiro supermercado a receber a Costelata foi o Zona Sul, no Rio de Janeiro. A costela em lata abriu a porta. Depois veio o prime rib.

A loja oficial da marca hoje apresenta produtos como costela bovina em lata, prime rib, carne seca desfiada, frango desfiado e costela bovina desfiada, além de itens autoclavados voltados ao food service.

Mas o negócio mudou de rota em uma feira de alimentos. A Costelata estava apresentando seus produtos quando um distribuidor enxergou outra aplicação. Ele gostou da costela, recorda Isabella, e pediu uma versão desfiada e congelada. O pedido veio de uma dor do food service: cozinhas profissionais e distribuidores buscavam carnes prontas com padrão mais estável, num mercado em que a qualidade dos desfiados vinha oscilando.

O problema, segundo ela, era a queda de qualidade e a presença excessiva de líquido em produtos disponíveis no mercado. A Costelata respondeu adaptando a receita da costela em lata para um formato desfiado.

Foi esse ajuste que acelerou a empresa. “Foi de uma tonelada para 10 toneladas, para 20 toneladas. Aí foi carne seca, frango”, afirma Isabella. A Costelata saiu de uma narrativa centrada na lata para uma operação mais ampla de proteínas prontas. O food service passou a puxar volume, escala e novos produtos.

Essa expansão não eliminou a tentativa de preservar a origem artesanal. Pelo contrário, virou um ponto sensível da marca. Isabella diz que a empresa cresceu em volume industrial, mantendo uma preocupação com receitas, tempo de preparo e ausência de adições químicas desnecessárias. A tensão entre escala e o lado artesanal é parte do negócio.

A compra da Deli 43, charcutaria artesanal de Itaipava, traz essa identidade. Isabella conta que assumiram a operação da Deli 43 durante a pandemia, preservou receitas e recontratou a equipe.

A Deli 43 também conecta a marca ao Selo Arte. Isabella afirma que a Costelata foi a primeira empresa no estado do Rio de Janeiro a ter o Selo Arte em seus produtos.

O Ministério da Agricultura define os selos de identificação artesanal como certificações para produtos alimentícios de origem animal elaborados de forma artesanal, com receita e processo ligados a características tradicionais, regionais, culturais ou territoriais.

No caso da Costelata, o selo ajudou a sustentar a conversa sobre uma carne em lata que não devia ser lida como ultraprocessado.

A operação hoje se divide entre duas frentes. A charcutaria segue em Itaipava. A Costelata tem fábrica em Três Rios, também no estado do Rio. Isabella afirma que a empresa já reúne mais de 100 pessoas.

A carne chega desossada, comprada de parceiros. A indústria concentra o processo de manipulação, cozimento, tempero e finalização. “A gente processa, cozinha, tempera”, resume.

Fernando segue atuando na advocacia e participa da empresa, especialmente em temas ligados à exportação. No dia a dia, Isabella toca a operação, a expansão e as negociações comerciais.

Essa posição colocou Isabella em ambientes onde a presença feminina ainda é minoritária. O mercado de proteína, agro e food service de escala costuma ser ocupado majoritariamente por homens, especialmente em negociações de compra, distribuição e produção. Ela percebeu isso logo. “Tive que me acostumar a ser sempre uma das poucas pessoas participando”, diz.

A dificuldade, para Isabella, aparece na forma como a liderança feminina é interpretada. “Quando uma mulher está sendo incisiva e se posicionando, às vezes a equipe interpreta como reação exagerada ou defensiva”, afirma. A frase vem da sua rotina de fábrica, feira, fornecedor, equipe e distribuidor.

Isabella diz que houve momentos em que precisou analisar a própria postura para não se moldar ao ambiente de maneira artificial. A questão, segundo ela, era ocupar a função sem abrir mão da própria identidade.

Em vez de transformar isso em discurso motivacional, ela descreve uma adaptação prática: entender do assunto, sustentar posição, criar confiança e aprender a lidar com reações diferentes diante da mesma atitude.

A parte menos visível do crescimento apareceu na gestão do tempo. A empresa avançava, os pedidos aumentavam, a operação exigia decisões rápidas, e Isabella passou por um período de centralização.

“Eu me pegava abrindo mão de absolutamente tudo, acordando às 5 horas da manhã, indo dormir às 2 horas da manhã e fazendo tudo ao mesmo tempo”, conta ela.

O aprendizado veio com aprender a delegar. Ela percebeu o risco de querer participar de todas as decisões e controlar todos os pontos da empresa. A virada ocorreu quando passou a compartilhar mais demandas com a equipe.

Segundo Isabella, a mudança melhorou o ambiente interno e deu mais responsabilidade ao time. “Foi muito importante eu me sentir mais confortável em trazer isso para toda a equipe”, diz.

Essa camada de gestão dá outra dimensão ao crescimento da Costelata. A expansão não se limita ao número de toneladas ou à abertura de novas linhas. Ela passa por estrutura, gente, rotina, orçamento, produção e limite físico de quem lidera.

Ao olhar para o início, Isabella diz que teria cuidado mais cedo da própria rotina. “Não achar que eu tenho que sacrificar tudo ao mesmo tempo e fazer tudo ao mesmo tempo”, afirma. “Você acaba performando melhor a longo prazo.”

O food service continua sendo um mercado que exige atenção permanente. Isabella o descreve como dinâmico, instável e cheio de oportunidade. Para mulheres que entram agora no setor, o conselho dela é começar sem a fantasia de dominar tudo de saída.

“Tem que estar muito antenada e disposta a se sentir confortável em começar sem achar que sabe muito”, diz. Na avaliação dela, o mercado brasileiro de alimentação ainda tem espaço para soluções prontas, especialmente quando combinam praticidade, qualidade e escala.

A Costelata agora tenta reencontrar o varejo com parte do que aprendeu no food service. Isabella afirma que a empresa prepara desfiados em embalagens menores, de 400 gramas, voltadas ao consumidor final.

O caminho é circular: a marca começou no varejo com a costela em lata, ganhou volume nas cozinhas profissionais e agora pretende levar a experiência dos desfiados para dentro de casa.

A internacionalização é a próxima frente, levando a carne para o mercado halal. “Para a gente, é muito importante conseguir desenvolver um produto que você consegue mandar para qualquer lugar e que seja uma refeição de qualidade”, afirma Isabella.

A Costelata ainda carrega o paradoxo que deu origem ao negócio. Vende carne pronta em lata num país em que a lata costuma ser associada a alimento inferior.

Cresceu no food service a partir de um pedido que não estava no plano inicial. Usa escala industrial para defender uma ideia de preparo artesanal.

E é comandada por Isabella Fernande, uma mulher jovem em um setor acostumado a negociar proteína entre homens.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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