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Aprendiz de cozinheira

Vinhos de Lisboa trazem o Atlântico e a serra para os copos brasileiros

Com nove denominações e forte vocação exportadora, região portuguesa apresenta rótulos para diferentes momentos

Aprendiz de Cozinheira|Aline SordiliOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Os vinhos de Lisboa são caracterizados por sua diversidade, com nove denominações de origem e forte vocação exportadora, sendo que 80% da produção é destinada ao mercado externo, incluindo o Brasil.
  • A região combina microclimas e solos argilo-calcários, resultando em vinhos brancos minerais, tintos gastronômicos e fortificados com identidade própria.
  • Os vinhos de Lisboa são influenciados pelo Atlântico e pelas serras, proporcionando frescor e salinidade, características que se destacam em eventos e apresentações no Brasil.
  • Carcavelos, uma das denominações mais singulares, oferece vinhos fortificados que são apreciados no final das refeições, complementando queijos e sobremesas menos açucaradas.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Carlos João Pereira da Fonseca e Elaine de Oliveira, dos Vinhos de Lisboa
Carlos João Pereira da Fonseca e Elaine de Oliveira, dos vinhos de Lisboa Divulgação

Os vinhos de Lisboa ajudam a entender a bebida como ingrediente. A região mostra no copo elementos que também importam no prato: acidez, salinidade, textura, tanino, doçura e persistência.

Além do vento atlântico, Lisboa combina microclimas e solos em grande parte argilo-calcários. Essa combinação ajuda a explicar por que a região entrega brancos minerais, tintos gastronômicos e fortificados de perfil próprio.


Um branco de Arinto pode limpar a gordura de uma receita. Um tinto com Castelão, Touriga Nacional ou Aragonez pede outra estrutura de comida. Um fortificado de Carcavelos muda o ritmo da sobremesa ou do fim da refeição.

A antiga região da Estremadura passou a usar o nome Lisboa só em 2009, movimento associado à diferenciação em relação à Extremadura espanhola e à aproximação com a capital portuguesa.


Hoje, a região reúne nove denominações de origem: Encostas d’Aire, Lourinhã, Óbidos, Torres Vedras, Alenquer, Arruda, Colares, Carcavelos e Bucelas. Carlos João Pereira da Fonseca, vice-presidente da Comissão Vitivinícola Regional de Lisboa, trata esse número como sinal da diversidade local.

“Lisboa tem cerca de 20 mil hectares de vinhas certificadas, produz em torno de 70 milhões de garrafas por ano e destina aproximadamente 80% da produção ao mercado externo”, conta Carlos João Pereira da Fonseca.


Fonseca representou a Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa, ao lado da sommelière brasileira Elaine de Oliveira, em uma apresentação de cerca de 50 rótulos para mostrar a amplitude da região em eventos em Búzios, São Paulo e Rio de Janeiro.

O vice-presidente da comissão de Lisboa também observa que a região busca mais reconhecimento no Brasil, tanto como fornecedora de vinhos para o dia a dia como para rótulos de maior valor e identidade. “Queremos que os vinhos de Lisboa sejam reconhecidos pela alta qualidade”, afirma ele.


Segundo dados apresentados no evento, o Brasil aparece entre os principais destinos dos vinhos portugueses, atrás de França e Estados Unidos. A informação ajuda a explicar por que a Comissão Vitivinícola Regional de Lisboa intensificou ações no país.

Elaine de Oliveira, sommelière e embaixadora dos Vinhos de Lisboa, resume a região a partir de uma imagem geográfica, com o Atlântico de um lado e as serras do outro, com as vinhas no meio. Para ela, a assinatura dos vinhos vem dessa influência marítima, presente nas nove sub-regiões, contingenciada pelas serras.

A brisa, a umidade e a salinidade ajudam a explicar a sensação de frescor encontrada em muitos rótulos. Elaine também chama atenção para os vinhos fortificados de Carcavelos, que compara, em categoria, a outros fortificados portugueses, como Porto, Madeira e Moscatel de Setúbal.

Parece uma distinção simples, mas não é. No serviço à mesa, Carcavelos não deve ser tratado como um vinho qualquer de sobremesa, mas como vinho de contemplação, para beber devagar.

André Teodoro, responsável pelo marketing dos Vinhos de Lisboa, mostra que a região não cabe em um único estilo. “Selecionamos vinhos que expressam a elegância, a diversidade e a autenticidade dos Vinhos de Lisboa”, diz ele. Há espumantes, pét-nats, brancos de acidez marcada, brancos mais aromáticos, tintos de castas tradicionais e vinhos fortificados.

Entre os espumantes e pét-nats apresentados pela organização dos Vinhos de Lisboa estão estão Berbereta Arinto & Chardonnay, de Óbidos; Pét-Nat Pim Pam Pum, de Fernão Pires, de Encostas d’Aire; Pét-Nat Pim Pam Pum Curtimenta, também de Fernão Pires e de Encostas d’Aire; e Quinta do Rol Chardonnay, de Lourinhã.

Os Pim Pam Pum, da Quinta do Montalto, apareceram na prova como rótulos de produção orgânica e perfil fresco, adequados a entradas de peixe cru, acidez alta e temperos mais vivos.

Eles mostram a face mais fresca da região. Na mesa, esse tipo de vinho costuma funcionar bem quando há fritura, entrada salgada, peixe, marisco ou pratos em que a acidez precisa cortar gordura e preparar a boca para a próxima garfada.

Nos brancos, a lista passa por Adega Mãe Terroir, com Viosinho e Arinto, de Torres Vedras; Carlota Imperetriz, ou Imperatriz, Reserva Arinto, de Alenquer; Mare et Corvus, com Malvasia, Fernão Pires e Chardonnay, de Colares; Quinta das Cerejeiras Grande Reserva, com Chardonnay, Arinto e Vital, de Óbidos; Página Sauvignon Blanc, de Óbidos; Colares Chitas Malvasia, de Colares; e Ramilo Colares Borras, também de Malvasia, de Colares.

É uma sequência que mostra diferentes caminhos para os brancos de Lisboa, da acidez da Arinto, ao lado aromático da Malvasia, passando pelo uso de castas internacionais e a marca marítima de Colares.

Colares merece atenção própria. A região fica junto ao Atlântico, com vinhas em solos arenosos e forte influência marítima. Nos brancos de Malvasia, como Colares Chitas Malvasia e Ramilo Colares Borras, a ligação com o mar aparece como parte do perfil do vinho.

Para quem cozinha, isso interessa porque a salinidade percebida no vinho pode conversar com peixes, frutos do mar e preparações de sabor limpo, sem que o prato precise ficar pesado.

Nos tintos, os rótulos citados são Adega Mãe Castelão, de Torres Vedras; Quinta de Azueira VG Vingrand 2019, com Castelão, Touriga Nacional e Aragonez, também de Torres Vedras; e Marco Velho Premium 2015, com Castelão, Aragonez e Syrah, de Torres Vedras.

Aqui a conversa muda. É preciso observar tanino, corpo, fruta e maturidade. Tintos assim tendem a pedir pratos com mais estrutura, como carnes, molhos mais densos, preparações assadas ou ingredientes com sabor mais concentrado.

O capítulo dos fortificados fecha a leitura da região de Lisboa com Carcavelos Villa Oeiras Tinto, feito com Castelão e Trincadeira, e Carcavelos Villa Oeiras Superior, com Arinto, Galego Dourado e Ratinho.

Carcavelos é uma das denominações mais singulares de Lisboa. O material descreve o estilo como fortificado, raro e ligado a uma tradição própria. Na prática de cozinha, é o vinho que ensina outra relação com o tempo. Não entra para refrescar a boca como um espumante, nem para acompanhar a proteína como muitos tintos.

Carcavelos aparece melhor no fim da refeição, quando doçura, álcool, acidez e notas de envelhecimento podem dialogar com queijos, frutos secos, doces de ovos ou sobremesas menos açucaradas.

A região também olha para os vinhos de menor graduação alcoólica. Carlos João cita os chamados vinhos leves, com cerca de 9% ou 10% de álcool, como uma possibilidade para um consumidor que busca frescor, menor peso e serviço mais descontraído.

Lisboa não se define por uma uva ou por um único perfil de vinho. A região se organiza pela tensão entre Atlântico, serras, vales, castas locais, denominações antigas e produtores que trabalham tanto estilos tradicionais quanto rótulos mais atuais.

Para um aprendiz, o melhor caminho é provar por contraste. Um espumante de Arinto e Chardonnay, um branco de Malvasia de Colares, um tinto de Castelão de Torres Vedras e um Carcavelos fortificado. A partir daí, o vinho deixa de ser apenas bebida e passa a funcionar como ferramenta para entender acidez, sal, gordura, textura e final de boca.

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