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Kerlin Schmitz transforma escuta ativa na rede de alimentação saudável Divina Terra

Nutricionista e cofundadora da rede transforma dúvidas de clientes, curadoria de produtos e gestão de franquias em um negócio com 80 lojas em 16 estados

Aprendiz de Cozinheira|Aline SordiliOpens in new window

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Kerlin Schmitz, nutricionista e cofundadora da Divina Terra
Kerlin Schmitz, nutricionista e cofundadora da Divina Terra Divulgação

Antes de usar a nutrição como eixo de um negócio nacional, Kerlin Schmitz, nutricionista e cofundadora da rede de alimentação saudável Divina Terra, precisou responder sozinha a clientes que chegavam a uma loja pequena no centro de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, com exames, restrições alimentares e perguntas que o varejo saudável de 2011 quase nunca sabia atender. “Eu ficava à frente da loja atendendo os clientes e precisava entender muito bem, porque surgiam perguntas inimagináveis”, lembra.

A cena ajuda a entender a empresa que viria depois. Naquele começo, alimentação saudável ocupava um canto menor do consumo. Kerlin descreve um mercado de aveia, linhaça, castanhas, arroz integral, pouca oferta para celíacos e suplemento quase restrito ao público de academia pesada.

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“O pessoal dos suplementos era ainda os ‘marombas’”, relembra ela. Para quem tinha intolerância alimentar, encontrar um produto específico exigia garimpo. Para quem vendia, exigia estudo.

Kerlin cursava Estética e Cosmética quando ela e o marido, Marcos Costacurta, abriram a primeira Divina Terra, em 2011. Ela se formou nessa área, entrou no balcão e percebeu que o repertório que tinha não bastava para as perguntas que apareciam.

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Sabia escutar, atender, procurar fornecedor e observar o consumidor. Faltava compreender melhor fibras, intolerâncias, suplementação, saúde intestinal e escolhas alimentares. A decisão de cursar Nutrição nasceu nessa hora.

O cliente entrava com dor, exame, dúvida. A empresária precisava devolver orientação responsável dentro do que a loja podia oferecer.

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A rotina tinha pouco espaço para romantização. “Eu estudava à noite, trabalhava o dia inteiro, das 6h da manhã às 7h da noite, saía de lá e ia para a faculdade. No outro dia, estava às 6h da manhã de novo.”

O balcão acabou virando campo de aprendizagem. Kerlin conta que clientes passaram a voltar com resultados de exames, relatos de melhora de intestino, colesterol e glicose.

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Kerlin fala desses retornos sem transformar a loja em consultório. O que aparece na memória é a confirmação de que havia demanda por orientação e produto confiável num mercado que ainda se formava.

Marcos, a quem Kerlin chama de “meu sócio de vida, sócio em tudo”, entrou cada vez mais na operação conforme o negócio cresceu. A divisão pública dos papéis se organizou. Ele, mais associado à expansão e à frente executiva. Ela, mais ligada à curadoria, à nutrição e ao conteúdo técnico.

Na primeira loja, a construção vinha da escuta diária, antes de ganhar planilhas e processos. “A gente sempre esteve muito atento ao que os clientes pediam”, diz. Quando alguém dizia que só encontrava determinado molho no Rio de Janeiro, eles procuravam a empresa. Quando dava, iam a São Paulo visitar feiras em busca de novidade.

A prateleira foi crescendo. A loja também. “Se você tem mais produtos para comprar, tem que colocar isso em algum lugar”, resume. Primeiro uma parede caiu. Depois outra.

O salto seguinte veio por um cliente. Sérgio Luiz da Costa Filho frequentava a loja, viajava bastante e enxergava naquele modelo uma chance de expansão. Queria uma franquia.

Kerlin diz que a resposta do casal foi pé no chão. “A gente não estava ainda preparado para franquia.” A saída foi testar uma segunda unidade. Em 2014, Sérgio entrou como sócio na loja de Novo Hamburgo, cidade vizinha de onde já vinham muitos clientes. A unidade nasceu mais estruturada, mais bonita, e passou a provocar uma comparação com a matriz de São Leopoldo.

Essa comparação ajudou a empurrar outra decisão. Em 2015, a loja original mudou para um ponto maior, com estacionamento, onde segue até hoje. A nova estrutura virou vitrine para quem queria entender a marca.

Kerlin já estava se formando em Nutrição, havia equipe, duas lojas em operação e um conhecimento mais prático do mix. A franquia veio depois desse período de maturação, entre 2016 e 2017, com a primeira unidade em Porto Alegre. Hoje são 80 lojas em 16 estados.

Quando uma loja vira rede, a intuição do fundador precisa passar por método. Na Divina Terra, isso aparece no mix mínimo de cerca de 2.000 produtos, nos treinamentos semanais, na seleção de fornecedores e no filtro técnico para novidades.

Há marcas obrigatórias, produtos de confiança reconhecidos por prescritores, negociação específica para a rede e espaço para itens regionais. Um pão sem glúten de uma cidade, uma kombucha local, um snack de São Paulo podem entrar, desde que passem pela avaliação da equipe de nutrição.

A operação exige ensino contínuo, com suporte suporte e treinamentos de produtos e nutrição aos franqueados. A quantidade de produto assusta quem chega. A franqueadora precisa ensinar o franqueado a ler o mix, entender as categorias, conversar com o cliente e gerir o caixa.

A alimentação saudável que ela viu nascer no varejo mudou de assunto várias vezes. Teve a fase da chia. Teve a goji berry, que Kerlin levava em saquinhos de 100 gramas para a faculdade. Teve a quinoa, que explodiu depois de uma reportagem de televisão.

Atualmente, é a alimentação reforçada em fibras, decorrente das injeções emagrecedoras. A leitura dela é que o consumidor passou a entender melhor a necessidade de proteína, fibras, vitaminas e acompanhamento. “As pessoas estão vendo que não adianta só usar caneta se você não tiver uma mudança no seu comportamento alimentar para sustentar o corpo.” Para a rede, cada nova onda exige cuidado: aproveitar a demanda sem vender atalho.

Na Divina Terra, o recorte feminino aparece no desenho da operação. Segundo Kerlin, pouco mais da metade das franquias é liderada integralmente por mulheres. Quando entram os casais que compartilham a gestão, o índice chega a 84%.

A explicação começa pelo perfil de consumo. A cliente mais frequente da rede, diz ela, é a mulher entre 25 e 50 anos que sai da academia, compra para si, para os filhos, para o marido, para os pais, pensa na merenda escolar e mantém uma rotina de reposição parecida com a de supermercado.

Esse convívio se transforma em repertório para empreender. Muitas franqueadas já conhecem a loja como consumidoras, participam de eventos com nutricionistas, aulas de ioga, pilates, ações com profissionais de saúde e entram na rede por identificação com o universo que já frequentam. “Elas se enxergam dentro da Divina Terra como gestoras”, diz Kerlin.

Para quem olha de fora, a Divina Terra pode parecer um retrato pronto do mercado saudável. Mas Kerlin prova que o importante é ouvir, aprender e executar. Escutar o cliente, transformar demanda em prateleira, prateleira em processo, processo em franquia, e refazer a conta toda vez que o consumo muda.

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