Tatiana Paes Barreto usa experiência em franquias na sua cafeteria artesanal
Empresária aplica 25 anos de experiência em gestão para montar a Cafeterisa, negócio que ganhou forma em uma casa antiga de Ramos, no Rio de Janeiro
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Depois de 25 anos em gestão e franquias, Tatiana Paes Barreto abriu a Cafeterisa. Transformou uma construção de 1930 em ponto de encontro na Zona Norte do Rio de Janeiro.
A Cafeterisa começou a funcionar antes mesmo da inauguração. Enquanto um grafite era feito no muro da casa de tijolinhos em Ramos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, clientes apareceram com o panfleto na mão.
Tatiana, proprietária da cafeteria artesanal, já tinha doces, cafés e algumas receitas prontas para servir à equipe que trabalhava no local. “Eu não poderia dizer que eles não podiam entrar”, lembra. A casa encheu naquele mesmo dia. A abertura, planejada para outra data, aconteceu ali, no improviso possível de quem já tinha preparado o terreno.
O começo real tinha vindo antes, dentro de casa, com pouco dinheiro, equipamentos domésticos e a necessidade de reorganizar a vida profissional. Tatiana havia decidido que não voltaria ao mercado CLT. Casada, mãe de Isabela, começou a vender café em casa e viu a resposta dos clientes aparecer antes de uma estrutura formal.
O investimento inicial ficou em torno de R$ 1.500, usado para utensílios e ingredientes. A meta, naquele momento, era testar receita, produto e aceitação. A decisão não nasceu de uma fantasia romântica sobre cafeteria.
Tatiana vinha de uma carreira de cerca de 25 anos em gestão. Formada em Administração de Empresas, com MBA em gestão empresarial e em gestão de projetos. Tinha também uma formação em business e executive coach.
Trabalhou em uma grande rede de franquias, coordenou consultoria empresarial, participou da implantação de lojas pelo Brasil e acompanhou operações de perto. Sabia olhar ponto, processo, custo, equipe e rotina. O que não sabia era operar uma cafeteria própria.
“Eu trouxe uma bagagem profissional de 25 anos para abrir essa cafeteria, mas nunca tinha aberto uma cafeteria antes”, diz. “Eu pensei: vou arriscar.”
O café entrou na história antes mesmo de virar negócio. Por coincidência. Em uma das operações que acompanhava, uma franqueada contratou uma empresa de máquinas de café, e ofereceu a Tatiana a chance de fazer um curso de barista no Centro do Rio de Janeiro.
Fez o curso e gostou do assunto, mas deixou de lado. “Naquela época eu nunca pensava em trabalhar com café e nem abrir cafeteria.” O intervalo entre o curso e a Cafeterisa foi de aproximadamente 12 anos.
Ao vender café em casa, percebeu que havia demanda. Em seguida, começou a testar receitas para entender se gostava da operação e se conseguiria adaptar o conhecimento de gestão ao ritmo de uma cozinha pequena, artesanal e voltada ao atendimento direto.
Durante alguns meses, preparou receitas, contratou nutricionista e chef de cozinha para apoio inicial e começou a desenvolver produtos próprios. A produção nasceu dentro das limitações da estrutura disponível.
Primeiro, equipamentos de casa. Depois, compras graduais. Refrigerador, freezer, utensílios, ajustes. O crescimento vinha do caixa, sem a lógica de antecipar uma expansão que a operação ainda não sustentava.
Antes de Ramos, havia Itaipuaçu. Tatiana e o marido compraram uma casa de 600 metros quadrados, com área gourmet e piscina, para montar uma estrutura de atendimento. A região, segundo ela, estava em expansão, com casas de veraneio dando lugar a moradias mais permanentes.
O lugar era tranquilo e tinha potencial. A análise de viabilidade mostrou outro cenário para o tipo de retorno que ela buscava, com mão de obra mais difícil e fluxo de pedestres menor. A previsão de retorno financeiro ficaria mais longa.
Ramos, ao contrário, oferecia comércio, empresas, moradores, diversidade de idade e circulação diária. Tatiana observou comportamento, conversou com comerciantes, fez visitas, avaliou taxa de conversão e comparou os dois pontos. “O ponto de Ramos tinha um fluxo maior de pessoas”, resume.
A casa de Ramos também pesou na decisão. O imóvel, de herdeiros da família, era uma construção de 1930, com tijolinhos e características preservadas. A estrutura deixou de ser apenas endereço e virou conceito.
O negócio foi organizado em torno da ideia de “casa de vó”, uma cafeteria com produto artesanal, mesa para conversa, atendimento próximo e tempo de permanência mais elástico que o de uma loja de passagem.
“O critério casa de vó se determinou com a avaliação do ponto e da casa”, diz Tatiana. “A gente leva a realidade do dia a dia de casa de vó.” A localização completou a conta. A cafeteria fica próxima ao BRT da Cardoso de Moraes, na principal rua de Ramos, com ligação para Bonsucesso e Praça das Nações, além de estação de trem e linhas de ônibus nas proximidades, segundo a empresária.
Para um negócio de pequeno porte, a facilidade de chegada ajuda a explicar parte do fluxo. Para a Cafeterisa, o ponto também favoreceu um público que Tatiana já havia identificado na análise do bairro: moradores mais velhos, especialmente mulheres idosas, que buscavam um lugar para sentar, encontrar amigas e serem recebidas pelo nome.
Na operação, esse público virou parte do desenho da casa. Algumas clientes passam depois de exercícios físicos. Outras marcam encontros mensais em grupo.
Há pessoas que vão para reuniões de trabalho, estudantes que usam o espaço, clientes que compram rapidamente e saem, clientes que reservam mesas. A loja tem dez mesas, entre área interna e externa. A parte de fora recebe pets, com água e biscoito.
Tatiana não trata a permanência como problema central da rotina. O fluxo, segundo ela, se equilibra entre quem entra e sai, quem trabalha, quem conversa, quem reserva e quem descobre a casa depois de tocar a campainha.
A campainha virou também uma marca no atendimento. Quem passa na rua nem sempre percebe a estrutura interna. Ao tocar, o cliente é recebido por alguém da equipe. A proposta é observar como aquela pessoa chega: se está com pressa, aberta à conversa, mais fechada, curiosa, sorridente ou cansada. “O acolhimento é tudo”, diz Tatiana.
Na Cafeterisa, essa frase descreve um procedimento de loja. A equipe é orientada a receber conforme o estado do cliente, dentro do que a empresária chama de “toque a campainha”.
A casa não tem a dinâmica impessoal de balcão rápido. O cliente que entra para comprar um salgado e ir embora é atendido sem demora. O cliente que chega buscando conversa encontra outro tipo de tempo. Essa diferença exige leitura, e Tatiana incorporou essa leitura ao modelo de atendimento.
A produção segue lógica parecida: pequena escala, controle e variedade. Pães, bolos, salgados e doces são preparados internamente. A casa trabalha com produtos artesanais, sem aditivos e conservantes, segundo a empresária, além de opções veganas, sem glúten e itens voltados a restrições alimentares.
O tamanho da cozinha limita volume e obriga planejamento de quantidade. Ao mesmo tempo, permite controle mais direto sobre o que sai para o salão e para o delivery.
O café especial também encontrou um caminho próprio dentro do bairro. Tatiana esperava vender mais café tradicional. Ao conhecer melhor o produto, passou a perceber a diferença entre o café de mercado e o café especial.
A surpresa veio da clientela de Ramos, que aderiu ao produto de maior valor. “Eu fui muito surpreendida, porque achei que continuaria trabalhando com café tradicional”, conta. “Hoje, meus clientes pedem café especial.”
O fornecedor atual fica em São Paulo. Tatiana mantém a compra porque o café foi bem aceito pelos clientes e porque a negociação em volume eliminou o custo de frete.
A experiência anterior em franquias ajuda, porque a lógica de operação não muda tanto quanto parece. “A parte de gestão não foge muita coisa”, diz. O aprendizado específico veio na prática, errando, ajustando e buscando informação.
A Cafeterisa usa delivery e passou por uma reestruturação de marketing para atualizar cardápio e plataformas digitais. Tatiana contratou uma agência para organizar a comunicação e as artes do cardápio.
Também aderiu ao Food To Save, tratado por ela como vitrine. A ideia é montar cestas planejadas, em média duas por dia, para que novos clientes experimentem produtos da casa e conheçam o espaço presencialmente.
Esse movimento dialoga com outro sinal que ela observa, como clientes de fora do bairro ligando para saber se a loja ainda estará aberta. Tatiana cita pessoas saindo do Recreio e de Ipanema para conhecer a cafeteria.
Também relata visitas de outras cafeterias interessadas nos produtos e perguntando sobre revenda. Para uma operação pequena, esse tipo de retorno funciona como termômetro de reputação.
Ela pensa em abrir a operação para pessoas que desejam empreender em cafeteria, com foco em mulheres. A ideia nasceu de uma falta que ela sentiu no começo.
Antes de abrir a Cafeterisa, quis entender como uma cafeteria funcionava por dentro e não encontrou um caminho simples para viver essa rotina antes de empreender. Agora imagina oferecer esse contato operacional a quem pensa em abrir o próprio negócio.
“Eu tive que aprender buscando informação no dia a dia, errando e acertando”, diz. “Hoje eu penso em como posso ajudar outras mulheres empreendedoras que gostariam de uma oportunidade.”
Tatiana saiu de uma carreira estruturada, reorganizou a vida profissional após o casamento e a maternidade, começou com pouco investimento, usou repertório de gestão para reduzir risco e construiu uma operação em que o atendimento é parte da estratégia.
O conselho começa pelo tamanho possível do primeiro passo. “Comece pequeno, avalie todas as situações e se prepare principalmente financeiramente”, afirma. Para quem quer crescer, diz ela, é preciso cuidar dos riscos. Ao abrir o CNPJ da Cafeterisa, registrou a marca no INPI porque já pensava em continuidade.
O curso de barista, feito 12 anos antes, fecha esse arco de maneira quase acidental. Na época, Tatiana aceitou o convite porque viu uma oportunidade de aprender. Anos depois, quando precisou redesenhar a própria vida profissional, aquele conhecimento encontrou lugar.
“Nunca deixe uma oportunidade passar”, aconselha Tatiana. “Em dado momento, a gente pode achar que não vai servir de nada, mas serve. Conhecimento é algo que ninguém rouba da gente.”
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