Laser íntimo resolve perda de urina? Saiba a verdade por trás do protocolo feito por Virginia
Procedimento pode estar ‘na moda’, mas recomendação de primeira escolha continua sendo a fisioterapia do assoalho pélvico
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“Às vezes, a gente ri e dá um escape de xixi”. A frase, dita pela influenciadora Virginia Fonseca em vídeo publicado nas redes sociais, provavelmente soou familiar para muitas mulheres.
Mãe de três filhos, ela mostrou a primeira sessão de um protocolo de laser íntimo e contou que o procedimento ajudaria justamente nesse tipo de perda urinária, comum depois das gestações.
O relato tem um lado muito positivo: tira do silêncio um problema que muitas mulheres enfrentam escondidas. A perda de urina ao tossir, espirrar, rir, pular ou fazer exercício — chamada de incontinência urinária de esforço — é frequente, mas não precisa ser encarada como “normal”.
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Mas o laser resolve? Com base nas pesquisas disponíveis até agora, o laser não é considerado um tratamento adequado para a incontinência urinária. As principais sociedades médicas internacionais não recomendam seu uso na rotina. A primeira escolha, segundo a Sociedade Internacional de Continência (ICS), é a fisioterapia do assoalho pélvico.
Como o laser íntimo deveria funcionar
O procedimento com o laser íntimo funciona através da introdução de uma ponteira especializada no canal vaginal da mulher, que emite energia cuja proposta principal é estimular a produção de colágeno na parede vaginal, o que, em tese, proporcionaria maior sustentação à uretra, que é o canal por onde a urina é eliminada.
A hipótese é interessante, mas tem um limite importante. A incontinência de esforço costuma envolver a força e a coordenação dos músculos do assoalho pélvico, o conjunto de músculos que sustenta bexiga, útero e intestino e ajuda a “fechar” a uretra no momento do esforço. O laser atua na mucosa vaginal; ele não treina esses músculos.
O que os estudos mostram
Nos primeiros anos em que essas tecnologias surgiram, parecia que todo mundo só elogiava os resultados. O problema? A maioria desses estudos iniciais era bem pequena, sem um grupo para comparar e com um detalhe importante: muitos eram financiados pelos próprios fabricantes das máquinas.
Esse tipo de pesquisa serve para dar o pontapé inicial, mas não consegue provar se o que ajudou as mulheres foi realmente o laser, o famoso “efeito placebo” (quando a gente melhora só porque acha que está se cuidando) ou até mesmo a melhora natural do corpo com o tempo.
O que dizem os estudos mais sérios?
Para tirar a dúvida de vez, os cientistas precisaram fazer estudos de verdade, comparando o laser com um procedimento “de mentirinha” (em que o aparelho é colocado, mas a energia não é ligada, sem que a paciente saiba). E os resultados dividiram opiniões ao redor do mundo:
- Austrália (2022): Um estudo com cerca de 100 mulheres não encontrou nenhuma diferença real entre usar o laser de CO2 de verdade ou fazer o procedimento simulado, três meses após o tratamento.
- Hong Kong (2025): Outro estudo importante, com 75 mulheres, testou o laser Erbium:YAG e chegou ao mesmo resultado: nenhuma diferença significativa em comparação ao grupo que recebeu o tratamento simulado.
- Brasil (2022 e 2025): Por outro lado, um estudo da Unifesp com 114 mulheres trouxe um cenário um pouco mais otimizado. Ele apontou vantagens para o laser em relação ao grupo simulado. Ao acompanhar essas mulheres por quatro anos, percebeu-se que o efeito vai diminuindo.
Diante de tantos dados espalhados, surge a pergunta: em quem acreditar? É aí que entram as chamadas revisões sistemáticas, que são tipos de estudos que servem justamente para juntar todas as peças desse quebra-cabeça (ou seja, juntar informações de diferentes artigos) e olhar o cenário por completo.
A revisão mais atual sobre o assunto foi feita pela respeitada Colaboração Cochrane e publicada em 2025. Os pesquisadores juntaram nada menos que nove ensaios clínicos, envolvendo um total de 689 mulheres.
A conclusão principal? Não dá para afirmar que o laser aumenta o número de mulheres que deixam de perder urina a curto prazo quando comparado ao procedimento simulado.
Houve, sim, uma leve melhora nas respostas dos questionários preenchidos pelas participantes, mas essa melhora ficou abaixo do que os médicos consideram uma diferença “clinicamente relevante” — ou seja, aquela mudança que realmente faz diferença perceptível no seu dia a dia e na sua rotina. Para piorar, o grau de certeza dessa evidência foi classificado como “muito baixo”, o nível mais frágil na escala científica.
O que dizem as sociedades médicas
As principais entidades que estudam o assoalho pélvico convergem: o laser merece ser pesquisado, mas ainda não é um tratamento estabelecido.
- IUGA (Associação Internacional de Uroginecologia): em parecer de seu comitê de pesquisa, destacou que a literatura sobre laser para incontinência era basicamente observacional e que as vantagens desses aparelhos só poderão ser recomendadas depois que ensaios clínicos robustos demonstrarem eficácia, segurança e o perfil de complicações a longo prazo.
- ICS e ISSVD (Sociedade Internacional de Continência e Sociedade Internacional para o Estudo de Doenças Vulvovaginais): em documento conjunto de boas práticas, não recomendam o laser como tratamento de rotina para incontinência, a não ser dentro de pesquisas bem desenhadas ou com regras específicas de consentimento e acompanhamento.
- NICE (Reino Unido): o instituto que orienta o sistema público britânico recomenda que o laser transvaginal para incontinência de esforço seja usado apenas no contexto de pesquisa.
- EBCOG (Colégio Europeu de Obstetrícia e Ginecologia): em posicionamento de 2024, afirmou que faltam evidências robustas para o uso na prática de rotina e pediu estudos de alta qualidade antes da adoção.
- AUGS (Sociedade Americana de Uroginecologia): em consenso clínico, registrou que não se sabe se o laser oferece resultados melhores do que os exercícios do assoalho pélvico ou a cirurgia, porque faltam estudos comparativos.
- Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia): em seu protocolo sobre incontinência de esforço, aponta a mudança de hábitos associada à fisioterapia como primeira linha de tratamento, com o treinamento dos músculos do assoalho pélvico como a técnica de maior evidência.
E depois da gestação?
Gravidez e parto estão entre os fatores mais associados à incontinência de esforço, porque podem sobrecarregar os músculos e os tecidos de sustentação da pelve. Vale observar que boa parte dos estudos com laser incluiu mulheres por volta dos 50 anos, na transição para a menopausa. Ou seja, pouco se sabe sobre o efeito do laser em mulheres jovens no pós-parto.
Para essa fase, a abordagem com mais respaldo científico é a avaliação do assoalho pélvico por fisioterapeuta pélvico e, quando indicado, o treinamento supervisionado desses músculos. Uma revisão Cochrane com 46 estudos e mais de 10 mil mulheres mostrou que esse treinamento reduz as perdas e melhora a qualidade de vida.
O que tem evidência sólida hoje
A boa notícia é que a incontinência de esforço tem tratamento, e em muitos casos ele começa sem procedimentos. As opções com mais respaldo incluem:
- Treinamento dos músculos do assoalho pélvico, orientado por fisioterapeuta;
- Ajustes de hábitos, como controle do peso, tratamento da tosse crônica e da prisão de ventre, e cuidado com a ingestão de líquidos e com a rotina de idas ao banheiro;
- Cirurgia, como o sling, reservada em geral para casos moderados a graves que não melhoram com o tratamento conservador.
A escolha depende do tipo de incontinência, da intensidade dos sintomas e dos objetivos de cada mulher.
Pensando em fazer o laser? Leve estas perguntas para a consulta
A decisão sobre qualquer procedimento é de cada mulher, junto com o profissional que a acompanha. Algumas perguntas podem ajudar a tornar essa conversa mais clara:
- Qual é o meu tipo de incontinência — de esforço, de urgência ou mista? O laser foi estudado principalmente na de esforço, mas ainda sem recomendação, pelas sociedades médicas, como tratamento de rotina.
- Já passei por uma avaliação do assoalho pélvico e tentei a fisioterapia pélvica? A primeira linha de tratamento recomendada para a incontinência urinária é o tratamento conservador, com treino funcional do assoalho pélvico e orientações comportamentais.
- Quais são os riscos, os cuidados depois do procedimento e o custo total? Será que vale a pena?
Uma conversa que vale a pena continuar
Falar abertamente sobre escapes de urina é um avanço — e a visibilidade que esse tema ganha com postagens assim pode encorajar muitas mulheres a buscar ajuda. O próximo passo é garantir que essa busca seja guiada por informação de qualidade. Hoje, a ciência indica que o laser íntimo ainda é uma aposta em estudo, enquanto o treino funcional do assoalho pélvico é um caminho seguro, acessível e com resultados bem documentados. Movimento também é cuidado — inclusive para os músculos que quase ninguém vê.
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