3 tiros
Até onde sei|Antonio Guerreiro

Foram três os tiros. Sim, todos na sequência. Impossível não caracterizar como crime passional. O advogado lhe disse que isso atenuaria a pena.
Vive em esforço contínuo para lembrar do que de fato ocorrera naquela noite. À tardinha, no bar da esquina, notou que o Tião não aparecera para a rodada diária de cachaça.
- Ô Zé, bebe aí. Parece que nem veio...
Zé não queria beber. Onde estava o Tião? Outra tarde em que depois da obra ele desaparecia.
- Xi. Zé...fica esperto com esse aí....
O Washington nunca erra. Vai sempre na mosca. Mas a Matilde não era dessas. Nunca foi. Não podia ser. Se bem que agora tinha dado para andar com uns vestidos curtos. Acima do joelho, vê se pode.
- Toma tenência, Zé. Matilde é mulher pura.
A bronca vinha da sua família. Seu próprio sangue ficava do lado da esposa. São 24 anos e dois filhos. O moleque tá homem feito e a menina já virou mulher faz tempo.
Matilde e o Tião? Não pode ser.
Tião tava ajudando a pagar o carnê da geladeira. Disse que fazia questão, que compadre é para isso mesmo. Mas tirava dinheiro de onde? E por que fazia questão?
- Isso aí é pra aliviar a culpa, Zé.
Matilde. Veio do nordeste com ele. Mesmo ônibus. Dez anos mais nova. Ou eram doze? Não podia ser, era intriga.
- Se vai ficar com essa cara de bunda, melhor ir embora, Zé.
Embora. Mais cedo.
Fez sinal para o ônibus, colocou a mão na cintura para sentir a arma e dali pra frente lembra da porta fechada, dos gritos e daquela palavra que repetiram nos depoimentos.
Estampidos. Foram três. E foram-se os dois. Correndo.
- Ô Zé, tu nunca recebe visita não?
Os filhos sumiram. Nem tinha como ser diferente. O que destrói é lembrar o olhar deles no julgamento. Ou se é pai ou monstro. Não tem meio termo.
Três tiros. Tentativa de homicídio. Se ao menos um tivesse acertado...
Talvez quem mereça a bala seja eu. Um só, assim, no meio da boca. E acaba tudo isso aqui.
- Zé, para de pensar bobeira e vem logo que já vão abrir pro banho de sol.
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