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A difícil arte de colecionar papéis

Até onde sei|Antonio Guerreiro

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Era meu vizinho e adorava papel. Não, adorava é pouco. Amava papel, fosse qual papel fosse, colecionava todos, das mais diversas cores. Tinha apenas uma restrição: não colecionava papel higiênico usado, pelo simples motivo de que não tinha dinheiro para comprar um armário com vedação de odor, mas quando enriquecesse ampliaria a sua coleção, incluindo os tais restos achados nas lixeiras dos banheiros.

Por sinal, lixeiras eram o seu principal local de coleta. Reclamava, vivia dizendo que não compreendia como as pessoas podiam jogar tanto papel fora. Será que elas não entendiam que todo papel tinha a sua história, seu próprio conteúdo (o que isso queria dizer eu não sei) e que eles não podiam ser desprezados assim, só porque alguém já tinha tudo o que estava escrito tudo o que quisessem em cima deles? Não era assim, era preciso ter respeito com os papéis, por isso os colecionava.


Certo dia juntou todas as suas economias, abandonou a mulher e mudou-se, junto com toneladas e toneladas de seus papéis, para um armazém abandonado no centro da cidade. Uma vez, cheguei até a visitá-lo e lá estava ele com uma caminha, um travesseiro e só. Ao seu lado, montes e montes de papel, dos mais diversos tipos, com os mais impensáveis textos, das mais diversas formas.

Sim, porque não colecionava apenas papéis escritos ou com algo impresso. Qualquer objeto que fosse feito de papel também era arrebatado para a sua coleção, por isso viam-se junto a revistas usadas e papeizinhos de anotação amassados e triturados, centenas de pipas de papel – devidamente sem as varetinhas feitas (argh) de madeira, milhares de copos descartáveis de papel, caixas de papelão e o que mais pudesse enriquecer aquele museu que deduzo ter sido o verdadeiro paraíso das baratas.


Dizem que ele tentou até convencer as indústrias papeleiras a transferirem seus estoques para o tal armazém, como um modo dele ficar mais próximo de uma quantidade maior de papéis. Parece que uma certa empresa só não aceitou porque o dono ficou com medo de ele (o meu vizinho, agora ex.) não permitisse que os caminhões retirassem a mercadoria do estoque para ser vendida, o que de certa forma faz sentido.

Estou contando tudo isso porque ontem fui ao centro e, por um acaso, passei em frente ao local onde ficava o armazém, mas agora existe por lá uma firma que vende casas pré-fabricadas, feitas inteirinhas de madeira, sem nada de papel. Ironia do destino.


Sobre o meu ex-vizinho, dizem que morreu no reveillon do ano passado, atropelado por um carro enquanto tentava capturar, no meio da rua, os pedacinhos de papel picado que caíam dos prédios do centro, durante a comemoração de passagem de ano.

Descanse em paz.


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