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A dor e a delícia de ver a filha virar um mulherão

Até onde sei|Domingos Fraga

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Quem já tem filha adulta, tenho certeza, é solidário comigo. Sentiu na pele, nos nervos, nos cabelos, nas unhas e em tudo mais o peso do título acima. Quem ainda tem filha pequena sabe que a sua hora vai chegar. Dizem que alguns pais estão preparados para isso. Não conheço nenhum.

Entre a adolescência e a maturidade, mães e pais vivem mundos paralelos, universos que não se conhecem. As primeiras, radiantes. Tornam-se confidentes. Traidoras, isso sim. A cada novidade, são tomadas por uma euforia... de... de... adolescente. E agem com aquela histeria revoltante que só os adolescentes são capazes de ter. Mais tarde, vão jurar que nunca se comportaram como uma nuvem de gafanhotos num milharal.


Já os pais, ali, inertes, quietões, ensimesmados na sua insignificância. Invadidos por um silêncio estrondoso, que só quer te enxotar dali, daquele papo entre mulheres... mulheres... mulheres. E é isso que acontece.

Está expulso do time e torça para que fique no banco de reservas. Você, agora, meu caro, pode continuar sendo o mantenedor da casa, o homem do cartão de crédito, o motorista particular, sempre a postos e alerta, mas, saiba, você foi mandado com uma passagem só de ida para a galáxia dos excluídos; para não dizer "lesados". "Você não vai entender mesmo, nem adianta falar", pensam aquelas.


Que fase, a adolescência. Aquele bebê que te fez levantar diversas vezes na madrugada só para constatar que tudo estava nos eixos agora quer tudo fora do eixo.

Tudo também é para ontem. E tudo ganha uma importância visceral. Litros de lágrimas são derramados por uma espinha obstinada, uma roupa que teima em não entrar, um cabelo mal-ajambrado. Até ter uma filha adolescente, não fazia a menor ideia do poder de uma "chapinha".


Mas, o pior, o pior mesmo, é quando a sua garotinha começa a receber da mãe natureza o que para ela estava destinado. Ela também tem direito a seios, a bunda, a pernas torneadas, lábios grossos, sobrancelhas esculturais, você é que não queria acreditar. E malditos, sempre malditos hormônios, dão o ar da sua graça. E muito mais. Então, a porta do inferno se abre e, subitamente, de lá saem seres desprezíveis de fulgurantes olhos azuis.

Todos... eu disse todos... todos os meus amigos com filhas na pré-adolescência quase choram só de imaginar o horror que está por vir. E, pode ter certeza, que no meio de todo este sofrimento, as mães, sempre elas, vão estar entusiasmadas, como se aquelas criaturas repugnantes estivessem interessadas nelas.


Nesta hora é que você avalia se fez a escolha certa na hora de se casar. Estas perversas, insensíveis, não conseguem compreender a dor de ver a sua filhinha querida "em um braço que nem um pedaço do seu pode ser". O velho Lupicínio não tinha nervos de aço. Pais também não.

No sábado, foi o baile de formatura das minhas filhas. Tenho duas gêmeas. Quando saí de casa pela manhã deixei duas meninas graciosas. Quando voltei, encontrei duas mulheres lindas.

Minhas borboletas saíram do casulo. Dancei com elas.

Poucas vezes na vida fui tão feliz.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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