A passarela
Até onde sei|Eugenio Goussinsky

Parou no semáforo naquela tarde quente. O barulho tenso do motor enervava. No ar pesado, a gasolina flutuava, enquanto a tarde explodia cintilante. Desembocava lírica no asfalto cinza. Na praça tranquila, alguns bêbados deitavam nos bancos. A rua em frente fluía movimentada. Pessoas se cruzavam, sem se olhar. Como se vivessem em um mundo próprio, alheias ao burburinho da cidade. Então, da esquina, surgiu uma moça, como flor semeada no cimento. O vento acariciava seus cabelos longos. Tinha corpo sinuoso e passos suaves, refrescando de ternura o ar quente da rua. A indiferença humana se curvava diante dela. Assim como as árvores, os prédios e os postes. As casas antigas, rachadas, adquiriram o tom róseo do céu. Pele levemente morena, olhos volumosos e distantes. Estilo despojado, mas elegante. Ela percorria o quarteirão tal qual uma modelo em passarela. O farol abriu. O homem ficou incomodado em ter de seguir em frente, em voltar à monotonia rude. Mas antes, esticou os olhos pelo retrovisor. Mesmo segurando o trânsito. Depois virou o pescoço por sobre o vidro, para acompanhar o fim do desfile sobre delicados saltos. Até sua vista não mais alcançar. Então, ela virou o quarteirão. Ele se rendeu. Acelerou, enfim, após conferir o rastro daquela passagem. E exalar o perfume daquele caminho de rosas. Pela última vez.
