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Amador

Até onde sei|Antonio Guerreiro

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Chama-se Amador. Nome bem apropriado, afinal jamais seria um profissional em qualquer área. Vivia enclausurado. Não saía de casa há cinco anos, exatamente cinco anos sem colocar o pé fora de seu apartamento próximo ao Centro de São Paulo. Motivo? Medo de morrer. Pavor absoluto, melhor dizendo. Tinha total certeza de que morreria assim que saísse de casa. O elevador cairia, quebraria o pescoço ao tropeçar na escada, seria atropelado por um ônibus na frente do prédio, qualquer coisa assim.

O telefone era seu único meio de contato direto com o mundo exterior. Pedia tudo via fone. Supermercado, farmácia, qualquer necessidade era suprida com um simples discar de números. Mas o mesmo telefone que servia para aproximá-lo do mundo, acabava por afastá-lo. Há tempos que não tocava. Os amigos iam esquecendo dele, afinal nunca estava nas festas, nas reuniõezinhas de seu grupo. Se o telefone tocava, não era para ele. Sua rotina era essa: poucos toques, muitos enganos.


No início da clausura ainda permitia que os entregadores entrassem no apartamento enquanto ele buscava dinheiro, o que colaborava para que tivesse ao menos alguns minutos de prosa a cada pedido.

Mas com o tempo, achou melhor receber as mercadorias através de uma janelinha feita por ele mesmo na porta. E se um dos entregadores fosse um assassino? É... pensava ele, assim seria mais seguro.


Num determinado dia, acordou com o sol já a pino, transpirando.

Teve um aviso no sonho. Iria morrer naquele dia.


Saltou da cama com um vigor que há tempos não apresentava. Era o seu último dia. Iria partir. Mas, e agora, o que fazer?

Decidiu manter a calma e fazer uma lista de possíveis providências: ligar para os amigos, tentar encontrar alguém da família lá no interior, deixar a casa arrumada e... arrumada? Sim, se iria morrer, seria ali, em seu apartamento, cenário de seus medos nestes anos todos, porque, mesmo com a certeza da morte, não iria sair. Afinal, poderia acabar morrendo antes da hora, o que não é certo. Resolveu largar a lista e preparar-se para a passagem.


Com qual roupa iria partir? Teria que estar bem apresentável, caso fosse uma mulher a descobrir o seu corpo inerte, ao menos estaria elegante. Pegou o terno do armário, fez um pequeno remendo na calça e, quando percebeu, a noite já havia caído. Tirou rapidamente o pó dos móveis, tomou um banho, vestiu-se e sentou, esperando a morte. Seria melhor estar deitado? Na dúvida, colocou a cadeira ao lado da cama, assim, se caísse, ficaria em cima do colchão.

Olhou no relógio, esperou. A voz no sonho tinha sido clara: morreria naquele dia, antes da meia-noite.

Alguns minutos o separavam de seu destino. E chegaram as doze badaladas.

Sentado, imóvel, Amador escutou cada uma delas. Ao término da décima segunda, afrouxou a gravata, respirou fundo e sorriu. Sorriso que virou gargalhada logo na sequência, para terminar em choro profundo. Estava livre, não tinha morrido. Viveria mais alguns anos no apartamento, fugindo daquela que não quis encontrá-lo no dia marcado.

Tremendo, abriu a pequena gaveta da cômoda ao lado da cama e o vizinho de baixo acordou assustado com o estampido curto e seco vindo do andar de cima.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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