Berço
Até onde sei|Antonio Guerreiro

Não foram poucas as vezes em que ele acordava durante a madrugada com a certeza de que ainda havia choro no quarto ao lado.
Caminhava tateando as paredes, encostava no interruptor e encontrava a mesma cama vazia, o armário vazio, a estante vazia e sentia que a ausência dele era uma presença cada vez maior em sua vida.
Lembrava-se de seu primeiro sorriso. Teria ele dias ou semanas? Ao lado do berço, um pai apaixonado lambendo a cria. O pequeno notara a admiração e devolvera com um sorriso daqueles que nos rasgam e duram uma vida em nossas memórias.
Agora era ele e a lembrança convivendo em um apartamento que de tão grande lhe era apertado.
Criamos os filhos para o mundo era o que diziam. Não. Criamos os filhos para que o mundo os tire de nós, para que eles decidam seguir seus próprios caminhos porque, a depender dele, o egoísmo venceria e aquele berço ainda estaria ali.
Foi então que percebeu que havia choro real naquela madrugada. A diferença é que era o seu.
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