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Coisas do Malandro

Até onde sei|Eugenio Goussinsky

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Foi numa casa de campo que o recebi em minhas mãos. Um filhote de pastor alemão com husky. Ele tinha algo além do convencional. Não residia nele somente aquele elán vital que morde barra de calças e sai latindo com o toque da campainha.

Havia um jeito especial de olhar. Um olhar serelepe, com um brilho a partir de suas retinas escuras, volumosas, condensando, naqueles glóbulos ínfimos, uma alegria infinita.


A sua dentição também trazia uma suavidade luminosa, que mais parecia um conjunto de pecinhas afiadas de porcelana. Quando uma delas roçava a pele, mais do que a sensação da leve picada, dava vontade de dar risada, tamanha a graça inofensiva do ato brincalhão, que chegava a fazer cócegas.

Levei-o para casa na esperança de que o encanto superasse as adversidades. E a cada manhã ele me acordava, apoiado com duas patinhas na borda da cama. Então eu sentia uma pontada de angústia para resolver a situação.


Morava com meus pais, que já tinham um cão. A casa era pequena, eu passava por dificuldades financeiras e achava que não teria condições de cuidar daquela figura cativante e terna. Insisti por uma semana.

Ele brincava, fazia estripulias, me chamando, com latidinhos, para compartilhar os prazeres da vida que se apresentava tão convidativa. Sua pelagem cinza era macia como a de um bicho de pelúcia.


Pelo fato de ser um raro vira-lata, a liberdade dos seus atos avultava. Era algo feito só de desejo de viver, de multiplicar a inocência pelas corridas sem fim, por jardins floridos, enfiando o focinho na terra úmida e se intrigando ao se deparar com uma fila de formigas carregando uma solitária folha.

Até que um amigo de minha mãe, um flautista desapegado de bens materiais, cabeludo, com trajes de jeans amarrotados e camisas um tanto desalinhadas, se ofereceu para levá-lo com ele. Achei naquele momento que não tinha outra escolha.


Acreditei que o homem desinteressado dos luxos seria a pessoa ideal para dedicar carinho ao Malandro, como chamei o bichinho. Pensei nisso logo que ele foi embora, quando um vazio invadiu minha noite. Foi um curto companheirismo, que valeu por uma eternidade.

Não o vi mais, apesar de não ser o que pretendia. Fui visitá-lo dias depois e soube que o desleixado havia deixado o cãozinho fugir. O pequeno sumiu pelas trilhas de uma existência incerta, desviando-se dos perigos, dos carros, dos bandidos e dos desinteressados. Com aquele bom humor que lhe era característico.

Hoje, na rua, sempre que vejo alguém levando um cão pela guia, me imagino com o Malandro, passeando pelos parques, pelas calçadas, deixando-o latir freneticamente enquanto me espera preso na entrada da padaria. Ainda acordo e me lembro de sua feição, respirando ofegante, debruçado na cama e de boca aberta, mostrando a linguinha de bebê.

Foi por causa do meu sumido amigo que jurei não repetir mais aquele erro. Não deixaria para mais ninguém. Com olhar vigilante, passei a cuidar de tudo que me cercava: filhos, trabalho, casamento ou só de uma lembrança.

Buscava até destrinchar um sonho para recuperar significados que as fantásticas imagens me trariam. A vida ensina, a realidade indica. O sonho fica, ecoando em um latido distante, distante, de uma vizinhança invisível. Nunca mais abri mão daquilo que era meu.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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