E tenho dito
Até onde sei|Antonio Guerreiro

Quando não há nada a dizer, o ideal é que você não diga nada. A máxima só não vale para os que vivem da pena. Que pena.
Não há um cronista, jornalista, colunista ou outro ista que ao ver-se sem assunto não tenha resolvido escrever sobre o nada. Neste caso, se nada há a dizer, escreva.
São textos sobre folhas em branco, bloqueios criativos, ausência de ideias. Todos disfarçam a incapacidade do ser falante de lidar com o não dito. Aprendemos a trabalhar com e em silêncio, mas duramos a compreender a beleza do que não é falado.
Nesta sociedade digital em que falar e mostrar torna-se obrigação, o não dito passa batido, como figurante de uma novela ruim.
E é nele que moram as melhores tramas. Como ignorar o olhar da menina que finge trabalhar na mesa do escritório, mas que segundos antes, ao te espreitar surgindo no corredor maquiava-se habilmente no mini espelho que carrega em sua bolsa?
O olhar forçado, quase oriental para a tela do computador à sua frente mal disfarça a palpitação que sentiu ao ouvir o seu bom dia.
O seu, pois ela não fala. Ela respira e sente. Sente-se parte de um mundo que não é dela. Ainda não, de acordo com seus próprios sonhos, mas que ela nem imagina que tampouco é seu.
P.S. Após longa ausência por motivos de força menor, este blog volta a ser atualizado regularmente.
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