Ela
Até onde sei|Antonio Guerreiro

Nome todo pra quê, moço? É Ela, estou falando. Pode anotar aí: E-L-A. Assim mesmo. Qualquer um me conhece por aqui.
Manoela Dias Moricci é sincera e modesta quando afirma que apenas as três letras a identificam. Nas ruas do Bixiga, bairro onde mora há "cheguei aqui há mais tempo do que mereça ser lembrado", ela é Ela, Manu, Dona Manu, Manuela, Manoela ou a senhora do duzentos e tantos ("não anota o número da minha casa senão vem gente de todo canto me conhecer") da rua Treze de maio. Ela, aquela que faz máscaras.
"Tem aquela ali de palhaço, essa de comédia, a de tragédia aqui - sai bastante por estas bandas, viu?". É difícil saber a cor das paredes escondidas na casa de poucos cômodos. Os vermelhos, azuis, amarelos, laranjas e pretos das bocas, bochechas e lábios das obras de arte de Manu são a prova de que o visual pode gritar, embaralhando os sentidos.
"Comecei por brincadeira, na falta do que fazer." O marido faleceu há oito anos, trabalhava em restaurante e "ria disso tudo aqui." Os filhos não vieram "mas cheguei a preparar o enxoval uma vez, quando atrasou (sic) as regras." Família, só no interior, a mais tempo que quilometragem de distância. "As minhas caras me fazem companhia".
Dona Manu observa o Bixiga por buracos em formato de olhos nas paredes. E a visão, limitada pelo espaço da argila, é ampla no que vê. "Isso aqui caiu muito. Só pra ter uma ideia, moço, sabe essa janela aqui? Dormia aberta. Lembro de gente passando à noite, saindo dos bares e parando na frente da casa só pra ver as máscaras aqui dentro. Se fosse hoje, eu taria morta." Ir embora? "Já foi o tempo, a idade vem e, pra te falar a verdade, minha vida é esta aqui, nesse
lugar. O meu lugar".
Analisar Manuela após bons minutos é encontrar a síntese do Bixiga: tradicional e subversiva, desapontada e resignada, apaixonada e apaixonante. Manoela pega uma cerveja "tomo duas por dia" apesar do frio lá fora, por causa do frio lá dentro e debruça o colo e o copo sobre o batente, colado à calçada. Enquanto continua a falar, diz mais e principalmente com o olhar que parece esperar pacientemente o dia em que no duzentos e tantos da Treze de maio não estarão mais o batente, a janela, a parede que nunca apareceu lá de fato, a vista da rua e das vielas. Dia em que não haverá mais Ela.
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