Éramos nós
Até onde sei|Antonio Guerreiro

Terminamos há exatos quatro dias e meio. Nem mais nem menos. Sem mais nem menos.
Em uma conversa tola, via celular, não voz que traduz os sentimentos, mas por texto, aquele mesmo que não tem tom, como o que você lê agora.
Quatro dias e meio e o primeiro encontro. Reunião profissional. Ela entra, finge que finge não notar em mim e eu devolvo a frágil artimanha de ex-amantes.
Senta-se, sorri doce e normalmente, sendo tudo menos ela. Sendo tudo, menos minha.
Engata a conversa entremeada por “sim” e “nãos” na voz em falsete. Disfarça que está disfarçando querendo enganar os olhos para que não encontrem com os meus.
Pega uma caneta, folheia um caderno em um eterno déjá vu em que os objetos eram outros, o cenário era outro, o momento era outro (quase agora, quatro dias e meio), mas acima de tudo outros éramos nós.
E termina o encontro com o não dito estampado em nossas caras, o futuro inexistente, a presença inexorável do passado.
Repete a mania que tem de deixar as coisas prontas, arruma a sala, ajeita as cadeiras enquanto os demais de despedem sem notar seu TOC em exercício.
Esforça-se em não ser a última a ir e faz piada levando a certeza de que jamais sairá daqui.
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