Estreio fumando
Até onde sei|Pedro Américo

Pedro Américo acendeu o primeiro cigarro aos 12 anos, nos fundos da quadra de uma escola municipal abandonada em Jaguariúna. Comprou o maço com a renda arrecadada na venda de duas de suas Playboys favoritas, e os fósforos, arranjou com um colega de classe filho de um fabricante local, que tinha acesso irrestrito às caixinhas e palitos que sobravam da produção mensal do pai.
Queria fazer direito. Bancar por completo o vício e não depender de ninguém. Se era para arrebentar os pulmões e desenvolver um câncer, que fosse ele o único responsável por isso.
De lá para cá, já se vão 35 anos fumando. E Pedro Américo não se arrepende. Sei disso porque, bem, Pedro Américo sou eu, este humildíssimo escriba que estreia hoje neste blog.
E estreio fumando, óbvio. Enquanto escrevo estas batismais linhas, seguro entre os dedos polegar e indicador esquerdos o sexto Charm do dia. Tem escritor que cria à base de cafeína, outros, de cocaína, e por isso creio que a nicotina seja o que de menos mal se possa escolher para atacar a saúde de um cronista.
Óbvio que exageros de qualquer natureza matam. E eu, na qualidade de um descomedido fumante, talvez esteja, sim, me aproximando do suicídio definitivo a cada bastonete. Mas daí vêm as colheradas de quinoa, linhaça e damasco por mim ingeridas diariamente e – quero acreditar – neutralizam todo o dano.
Outro dia estávamos, o confrade Xico Sá e eu, a bebericar de pé num boteco da Tijuca, quando abocanhei um Charm e, já prestes a girar a pedra do isqueiro, o ouvi urrar, desesperado. “Não, isso, não!”.
Cuspi longe o cigarro apagado e me preparei para rebater o sermão com argumentos sobre os benefícios do alcatrão, mas Xico queria apenas elucidar que tomar cerveja de pé, lá em Recife, é sinal de mau agouro, e que deveríamos imediatamente pedir uma mesa ao garçom.
Caríssimo Xico, sei que você me lê, e que sabe do apreço que tenho por nossa amizade. Mas, convenhamos, não se interrompe bruscamente um fumante em meio ao ato. Isso não se faz.
Como quando me camuflei no banheiro do ônibus que faz a linha São Paulo-Marília para arriscar umas pitadas e fui surpreendido pelo guarda rodoviário fazendo a ronda atrás da origem do cheiro de fumaça. Que corta onda.
Apontei para a criança que me acompanhava no toalete - meu filho de oito anos - e, fazendo cara de injuriado, perguntei onde já se vira alguém que fuma escondido em banheiro de ônibus e usa infante como álibi. Não me ofendam.
Fumo, não nego, e continuo pagando sempre, já que posso. Programo minha agenda de compromissos baseado nas pausas entre as atividades, para que nunca seja condenado a mais de duas horas sem acender um cigarro.
Justamente por isso nunca vou ao cinema. Quer dizer, nunca é modo de falar, porque fui, sim, uma vez, na estreia de Titanic. Confesso que aceitei o convite única e exclusivamente porque sabia que haveria um intervalo no meio do filme, o que me resgataria da agonia não da tragédia do iceberg, mas, sim, da minha, desesperado com o inútil maço de Charm no bolso da camisa.
Deixem-me de pé na Tijuca, mas não me deixam sem fumar. Afundem-me num navio e congelem-me no mar, mas, imploro, pelo amor de Deus, não me deixem sem fumar. A tortura da abstinência mata mais rápido que a nicotina.
É hora do sétimo Charm, amigos. Adeus, e até uma próxima.
Pedro Américo Bó é escritor
