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Firenze

Até onde sei|Antonio Guerreiro

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Sempre Firenze. Sempre outubro. Sempre aquele quarto no mesmo hotel. É assim há 29 anos.

Chega, é chamado pelo nome e dirige-se diretamente ao 319. Abre a porta e fecha os olhos por alguns segundos (minutos, horas, quem saberia?).


Larga as coisas no chão, segue em direção à janela e dá seu primeiro suspiro.

Fora exatamente ali, debruçada despretensiosamente, com os cabelos ainda molhados, envolta em uma toalha que pouco a secava que o fim tivera início.


O olhar da moça não admirava mais os jardins da Toscana à sua frente. Olhava para dentro. Talvez olhasse mesmo para ele, como se o encarasse ainda que seus olhos sequer o fitassem.

Vinte e nove anos. Não houve pergunta, discussão, respostas. Sequer um adeus.


Ela pegou as poucas coisas que ainda valiam a pena carregar, enxugou-se, vestiu-se daquele modo em que pouco importa se a fina camisa branca denunciava uma transparência não proposital e parou.

Ele estava em pé, ao lado da cama ainda desarrumada, vendo as taças de champanhe e a garrafa vazia caída. Vazio que preenchia aquele ambiente sem palavras.


Não, ninguém disse nada. O não dito falava tudo.

No ano seguinte, lá estava ele na esperança de que ela cumprisse o que havia sido combinado ainda durante o jantar, antes da madrugada em que tudo (o que havia sido mesmo?) acontecera. O encontro anual, cada qual deixando seu mundo, compromissos, famílias para trás por alguns dias apenas.

Mas ela não foi. Vez ou outra sabia de uma notícia. “Está em Paris”, “Budapeste”, “Rio de Janeiro”. Não, estavam errados. Esses lugares eram todos longe demais. Ela estava ali, dentro dele, este tempo todo.

Pela 29ª vez olha seu reflexo no vidro da janela. Sim, era óbvio que o tempo chegava mesmo onde parecia ou deveria estar parado.

Cumpre seu ritual. Abre a champanhe, serve duas taças e fica em pé, na beirada da cama, à espera.

Daqui a exatos 15 dias, retornará para completar três décadas de uma promessa unilateral, mas que o permitiu sonhar por toda uma vida.

Uma boa viagem.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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