Foi assim
Até onde sei|Antonio Guerreiro

Tudo começa naquele dia em que você, lá pelos 12 anos se descobre olhando para a menina que passeia pelo pátio enquanto seu colega insiste em continuar falando sobre aquele game que vocês adoram (adoravam?) jogar.
O sinal toca, você sobe as escadas carregando uma mochila que pesa quase duas vezes o que você poderia aguentar, mas, estranhamente, parece leve, pois você não sente nem a carga nem a presença dela nas costas. Por presença, entenda-se que você não nota mais a de ninguém. Só a sua e a ausência dela. Sim, ela, a do pátio que teima em não estar nas escadarias.
Entra na sala e se senta em outra cadeira, exatamente a que fica atrás daqueles cabelos que até outro dia você insistia em chamar de “boi lambeu”.
Ela, nem tchuns. Segue a vida como se não percebesse que não há mais ninguém ali além dela, você e sua vontade imensa. De quê ainda lhe falta vocabulário para definir, mas o desejo aumenta ainda mais quando mesmo sem brisa vem o cheiro.
Não são o aroma, o perfume, os hormônios. É tudo isso junto. Você inspira e inspira-se.
Quer jogar todas as ciências exatas pelo vidro ao seu lado, declamar os poucos poemas que constam na apostila da sexta série e dizer que...dizer o que mesmo?
Que o sinal tocou. Duas aulas se passaram e o recreio chegou. Não houve uma troca de palavras, nem sequer uma borracha emprestada. Ainda assim, aquele olhar à saída da porta da sala, meio de esguelha, apagou 12 anos de brinquedos, jogos, manhas, gibis e amigos.
Dali em diante, seria e será apenas ela. Manhã, tarde, noite e madrugada.
É assim que termina a infância e nasce um amor.
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