Magro
Até onde sei|Antonio Guerreiro

Se eu falar para o senhor que o cidadão media 1,95 m e pesava só 70 quilos, vai acreditar?
Era uma figura, aquele lá. Figura não, era o álbum todo. Melhor amigo que eu tive em toda a vida. Que amigo, o quê. Compadre.
Fiz questão. Quando o Wellington, meu mais velho, nasceu nem pensei duas vezes. O Magro é o padrinho.
E não é que o sacana quase tira o moleque de mim? Verdadeira loucura o menino tem por ele. Tinha, né?
Tá ouvindo essa música aí? É só tocar no rádio que eu aumento. Fico todo arrepiado, olha só.
O Magro era metido a tocador de violão, mas só sabia essa aí. Era Canteiros, do Fagner o dia todo. Figura...
Repara não, mas meus olhos enchem d’água mesmo. Cresci frouxo. Tenho nove irmãs. Isso, irmãs. Tudo mulher e só eu de homem. Sou o quarto da linha.
Safado era outra coisa que o Magro era. Vixe! Tentou de todo jeito ficar com a Cibele, minha irmã mais nova, uma delas, né?
Mas o cabra bebia muito. Esse foi o problema. Bebia em festa e quando não tinha festa, ele criava a dele. A nossa, quer dizer.
Quantas vezes a Fátima, minha mulher, ficou doida. Segunda-feira, nove, dez da noite, o desgraçado chegava lá em casa assobiando Fagner, com uma caixa de cerveja gelada, umas carnes e ia até a minha cama me puxar pra acender o fogo e a pitanga.
A brincadeira ia até três da manhã. E eu ainda tinha que trabalhar na terça.
Não deu certo com a Cibele, mas encontrou uma santa, a minha comadre. Prometia que ia parar de beber todo final de ano.
Chegava dia 31 à tardinha e ele sentava naquelas cadeiras de plástico, punha um garrafão de 5 litros de vinho no chão e ó, só ia abastecendo.
Quando virava a meia-noite, a comadre soltava lá uns nomes feios e cobrava a promessa de parar.
Ele perguntava se já era dia primeiro e tascava na fuça dela, sem vergonha nenhuma que só ia beber então esse restinho de ano.
Restinho de ano! 364 dias... Figura!
Teve um dia em que ele, já na pior, ruim mesmo, foi ao médico comigo. Especialista, do hospital militar. Minha mãe foi enfermeira lá e consegui uma consulta.
O doutor falou por duas horas. Pediu até exame. No final, o Magro olha pra mim e pergunta pra quê tudo aquilo. Fiquei doido e ele emendou dizendo que era tanto papo, mas tanto papo e o doutor não tinha oferecido nem uma branquinha pra ele durante a consulta toda.
Era um sarrista. Era não, ainda é. Deve estar rindo da minha saudade.
Aquele era compadre, mas nasceu pra ser o irmão que eu não tive.
Ele sabia que ia morrer. Do pescoço pra baixo era só câncer. Um dia antes, reuniu a rapaziada e disse que ia virar tudo o que podia porque amanhã ele já não estaria mais com a gente.
Entrou a turma do para com isso, mas ele emendou um Reginaldo Rossi, não cantado porque isso era privilégio do Fagner, mas falou mesmo que se caísse no chão era pra deixar ele lá.
Era uma sexta-feira santa. No sábado a comadre ligou e disse que ele não aguentou.
Segurei a alça da frente, a primeira. Chorei, como eu chorei. Mas levamos um violão e foi Canteiros o velório inteiro. E 18 garrafas de uísque. Dezoito. Foi pouco. Ele merecia um porre maior de todo mundo lá.
Se eu fechar os olhos me lembro do caixão descendo. Até hoje me pergunto por que eu não pulei junto naquele buraco.
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