Minha Menina
Até onde sei|Antonio Guerreiro

Tinha três, no máximo quatro anos quando tudo começou. Nossa história teve início da maneira que as grandes histórias começam, por nada ou acaso. Eu, um jovem rapaz, apoiado no muro, olhando o nada, com a despreocupação típica da idade e ela caminhando em frente, sempre de passagem, com as mãos dadas à babá, mas só por obrigação.
Até hoje não sei o porquê de ela ter reparado em mim. Talvez por isso ou aquilo, mas o fato é que uma voz tenra chegou até o muro na forma de um simples "oi". Respondi educadamente na mesma proporção e lá se foi um "olá". Não o suficiente, mas assim foi o primeiro dia. Outros viriam.
Na semana que seguia, a troca foi continuada. Mas lá pelo terceiro dia de "ois" e "olás" a mera simpatia cedeu espaço àquilo que seria a forma mais intensa de nosso relacionamento. O olhar.
A babá passava sem entender, mas naquela fração de minuto em que cruzávamos os nossos focos, a troca era completa. Um mundo lúdico, sonhador, mais de fadas que de bruxas, formava-se na junção de nossos olhares. E assim seguimos, dia a dia, ano a ano, sem palavras, mas dizendo mais um ao outro do que sequer poderíamos supor.
Foi aí que ela desapareceu. Assim, de repente, da mesma maneira como surgiu. Custei a acreditar que nosso pacto silencioso havia sido quebrado, tentei encontrar razões, mas elas deveriam existir? Não há nexo na mágica de um olhar, por mais que procuremos.
E assim o muro envelheceu junto com este - agora já não tão jovem - rapaz. Sozinhos, sem a cumplicidade, sem a renovação diária de esperança, sem o sentido daquele olhar.
E não são poucas as vezes em que, até hoje, dirijo-me ao muro e passo horas esperando, quase sem acreditar, mas ainda alimentando a ínfima hipótese de vê-la novamente.
Os que me escutam dizem que ela cresceu. Só não sabem o quanto dela ainda cresce dentro de mim.
