Nós somos jovens, temos alguma grana, tatuamos o corpo e queremos é mais!
Até onde sei|Carmen Farão

Já dizia Caetano Veloso nos seus bons e livres tempos sobre a força da grana que ergue e destrói coisas belas. O mercado descobriu gays e lésbicas e passaram a respeitar a orientação sexual como um nicho que gasta muito, mas muito mesmo com conforto, viagens e alegrias exatamente por considerar essa alegria finita, não aceita pela sociedade. Agora a sociedade os agrega alardeando beijos entre iguais que não passam de selinhos. Mas é um mercado, é preciso investir. Ninguém perde com isso. Ao contrário. Mas que a motivação é financeira, é. Infelizmente, e gostaria de estar enganada, a crescente consciência de que somos todos iguais não vem da cidadania e educação, mas da grana que ergue e destrói coisas belas.
“Eles” venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens, bradava Belchior. Cadê Belchior? Em algum “araguai”, provavelmente lutando contra os alertas que atirava no ventilador musical: “você não sente e não vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo...”.
Selfies-Services, nossas Princesas Não São Mais aquelas
O novo sempre vem. É exatamente aí que o pomo de Adão sobe e desce quando engolimos. Em seco ou com três ou duas pedrinhas. O novo sempre vem. Mas a gente não envelhece. Ou ainda não envelheceu. Falo de uma geração específica, fruto das descobertas transloucadas dos anos 60 e 70, gerada nas vísceras da AIDS, no final da guerra fria e ainda com resquícios de teorias da conspiração. Falo dessa geração maravilhosa análogo-digital, pré e pós, esperançosa e decepcionada cuja energia acumulada ao longo de décadas férteis e inimitáveis ainda pulsa na veia com tanto fervor, como se fosse estourá-la.
Nós, cinquentinhas, quarentinhas, somos o novo. E ninguém descobriu o nosso potencial ainda. Temos carreira consolidada, dinheiro para gastar, vontade de diversão e geralmente solitários com a vida construída atrás dessa.... hmm... estabilidade financeira.
Nós viemos, somos novos. Estáveis monetariamente, morrendo de vontade de aproveitar a vida. Somos jovens e o sinal está fechado pra nós, como pode?!
Aceitação do corpo, síntese da felicidade dos novos 30
Essa geração que em sua maioria não é e não vive como seus pais. Que casou mais de uma vez, separou, decidiu pela solteirice, ganharou a vida e gasta como quer , dança o rock que é rock mesmo. Vivia em comunidade, um por todos e todos por qualquer um. Entra, pode entrar, a porta está sempre aberta. O perigo são “eles”. Não os bandidos.
Os 50 são os novos 30. Acreditem. Poucos que conheçam se encaixam no estereótipo do cinquentão acabado, barrigudo, ou de bob no cabelo com vestidos abaixo dos joelhos. Que nada!
Outro dia mesmo fui dançar. Não esperava o homem dos meus sonhos como num romance, mas fui num dancing. E todos estavam lá, cheios de gás. Como antes. Casa lotada. Abarrotada. Ouvimos rock’n roll-yeahhh! Ouvimos Grease e Saturday Night Fever. A maioria com o celular ligado. Uma ficou possessa que tinha que abrir a casa para o filho que esqueceu a chave. Já era madrugada. Divertidíssimo. Depois Beyoncè, Marron 5, Keith Perry. E depois Michael Jackson, Madonna e Brithney. Depois Chico, Mangueira, Beth Carvalho. Depois só e só carnaval. E depois o refrão de “Got To Be Real” pra fechar a noite.
Ow, ow, ow, baby, na verdade nada mudou.
Vila Olímpia, bairro das baladas badaladas e caras de São Paulo. Casa lotada. Abarrotada. O som agora era Disco. Quanta energia e alegria pra botar pra fora.
Os cinquentões querendo botar seu bloco na rua. Alguns com menos cabelo, uma barriguinha a mais, outros inteiraços, com rabos de cavalo, bandanas, bermudas e alargadores nas orelhas.
Garotas cinquentinhas de saia curta, lindas pernas, cheirosas e um tanto hippie-chiques jogando seus cabelos para todos os lados. Freak out!
No clube das feras do asfalto, motos incríveis e seus pilotos fantásticos fechavam uma rua no meio da tarde para comemorar o aniversário do dono do bar. Harleyros, de jaquetas de couro, viajantes das estradas que vimos com frequência quando dentro do carro, comportados, sorrimos para a cena do lado de fora há highway.
Somos um nicho com dinheiro pra gastar, vida pra gastar, vontade de viver mais do que qualquer outra geração pesquisada. Vimos o fim mais próximo que o começo. Datilografamos antes de digitar, filmamos antes de gravar, e agora, olha só, o vinil está voltando com tudo e nossa coleção intacta está lá, esperando o technics ser religado.
Costumo dizer que sou retrô. Mas, sabe que estou achando que não? Acho que sou algo novo, parte desse povo novo, renascido cujo mercado ainda não foi aberto para nós.
Somos tratados como pais e mães de família. E não somos. Somos traídos, traidores, fugazes, vorazes, muito a fim de deixar a solidão fera fora disso tudo. E viver esse fim do mundo que se aproxima. Coisa que na nossa adolescência não acontecida. O mundo era infindável como o universo. Hoje, com buracos na camada de ozônio, chacinas e dizimações de povos, guerras infindáveis, fenômenos naturais arrasando continentes, sabemos que vai ter fim.
E queremos viver antes deste fim. Nem que tenhamos que gastar até o último centavo, porque os novos 30 sabem, com a consciência de 50 vividos, que o mundo nunca mais será o mesmo que antes.
Essa geração, a nossa geração é única. Não haverá outra. É preciso ter orgulho. Eu me orgulho. E quero botar meu bloco na rua. Hoje. Amanhã. Agora. Ridiculamente, espalhafatosamente, falando com as mãos e expressões, fazendo piadas sem graça, agradecendo e sendo gentil com qualquer um que cruzar o meu caminho. Queremos ser finalmente o que acreditamos uma vida toda. Porque este mundo vai acabar, ah, vai... E nós, novos 30, queremos viver como nunca antes.
Acredite, tem MUITO gás pra gastar por um bom tempo!
