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O bom filho...

Para Gilda e Marcello (em memória), meus pais

Até onde sei|Octavio Tostes

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O bom filho a casa torna, reza o dito popular. A expressão lembra a parábola do homem que tinha dois filhos e uma fortuna. O mais velho ficou junto ao pai no eito. O outro, de posse da herança antecipada, correu mundo, devasso e perdulário. Quando não tinha mais nada agregou-se como escravo. E foi tratar de porcos. Passou fome, quis comer as favas que servia aos animais. Caiu em si. Voltou, pediu perdão e o pai o acolheu em festa.

Aos 16 anos saí de Miracema, no interior do Estado do Rio onde fui criado. Não dilapidei riqueza, que não havia, tão pouco fiz fortuna. Sobrevivi jornalista, escravo dos fatos. E homem do século passado - um tempo que varreu preceitos e libertou o amor da obrigação do casamento. Assim fui.


E volto. Me senti retornando a Miracema quando d. Ricarda, em email à minha mãe, me convidou para colaborar com o “Liberdade de Expressão” - tablóide que ela publica todo mês com zelo, fé e trovas há 16 anos.

Folhear o “Libé” – como passei a chamá-lo, nomeando assim a pasta do computador onde guardo notas e crônicas para o jornal - é um passeio pela memória. D. Ricarda, mãe do Jadinho, colega de turma no grupo escolar onde d. Ruth nos ensinou o beabá. Como ao Cícero, filho do “seu” Erasmo, colaborador também. D. June, nossa professora de Biologia. Até os autores que não conheço me lembram amigos pelos nomes de família. Serão filhos de quem e pais de quais novos miracemenses? D. Gilda, minha mãe e sua coluna “Retalhos”.


Os meus são o Jardim da Infância, varanda de salas sem parede. D. Ritinha, primeira professora. A Praça D. Ermelinda, sombreada por ficus de poda caprichosa. Os bancos cinzas e curvos que me vinham à mente toda vez que ouvia Ronnie Von cantar “foi lá que começou o nosso amor”. O rinque onde ainda ouço os tiros dos chutes do Adílson no futebol de salão. O parquinho: gangorra, balanço, escorrega, areia. A fonte luminosa, cores bailarinas sob as estrelas. No viveiro, um pavão formoso. E as flores. Meninas, saias plissadas azul marinho, blusas brancas.

Na colina, a Matriz. As torres, os sinos e a badalada das horas. Na modorra dos janeiros, na dama da noite dos marços, na neblina dos junhos, na jabuticaba dos outubros. Toque soturno ao nos irmanar na morte, como no enterro de meu pai. Batidas destrambelhadas ao nos congraçar nos Sábados de Aleluia. Nesta igreja que a meus olhos meninos era alta como uma catedral, ouvi padre Luís - com seu português holandesado - ler no livro preto de páginas fininhas a história do filho que um dia foi embora e quando voltou foi amado... Achei que seria esta a minha sina. Vá-se lá saber porquê... Tudo é mistério nesse revisitar...

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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