O riso do sentido
Para Denise, Edson, nissei e Daniel, sansei
Até onde sei|Octavio Tostes

Uma das coisas que mais me intrigou em Tóquio foi o japonês. Lá experimentei a sensação de mergulhar em uma cidade, seus luminosos, McDonald´s, ruas, Starbucks, metrô, pontas de conversas e não entender nada - a não ser as pistas das palavras em inglês. Este é um dos temas de “Lost in translation” , filme de Sofia Coppola ambientado na capital do Japão. No Brasil, virou “Encontros e desencontros” e em Portugal, “O amor é um lugar estranho”.
Lembrei muito do filme quando estive ali há algum tempo, a serviço da Rede Record, com a repórter Catarina Hong; o cinegrafista José Santana; o técnico Silvio Jordani; o produtor Mikio Yto, brasileiro então residente no país; e o habilidoso Tokunaga, nosso motorista. Revia mentalmente cenas de Bob Harris (Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansson). Ele um ator americano de meia idade e decadente, fazendo campanha de whisky. Ela uma jovem também dos Estados Unidos, casada com um fotógrafo workaholic que a abandonava no labirinto de arranha-céus e letreiros enigmáticos em kanji, hiragana e katakana, caracteres da escrita japonesa.
Foi por este cenário que Tokunaga nos conduziu, cortando avenidas de trânsito intenso e se esgueirando por vielas apertadas, enquanto registrávamos a falta de espaço em Tóquio e arredores. O hotel cápsula que oferece buracos na parede onde se dorme de dia e a noite; a pia em cima do vaso sanitário em apartamentos populares; a horta com canteiros para alugar e o estacionamento de duas vagas apenas.
Tokunaga, lembrou Mikio um dia destes, era um japonês aberto, alegre. A imagem que guardo dele, no entanto, é a de alguém quieto. Talvez pela barreira da língua. Ele mal falava inglês, nenhum português e eu, nada de japonês. Erguia-se entre nós um muro invisível – atravessado somente pelos sorrisos de bom dia, boa noite e até amanhã que trocávamos no início e no fim de nossas longas jornadas.
Até que fôssemos a um restaurante tradicional para nosso jantar de despedida. Entre outras iguarias, um sashimi... de cavalo. Depois dos peixes e tempuras, veio o cavalinho, recebido com apreensão. Empunhei o hashi com leveza e precisão de samurai, catei uma lâmina do carpaccio equino, levei à boca, saboreei em meio ao silêncio da equipe, respirei fundo e...
- Rrrriiiiiinchhhhhhhh... bruuuuuu… - relinchei a plenos pulmões.
A estrondosa gargalhada do até então calado Tokunaga me deu a risonha sensação de que aquele som fizera, para ele, algum sentido.
