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O silêncio de Atílio

Até onde sei|Antonio Guerreiro

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Aprendera desde cedo a respeitar os mais velhos. Mais do que educação, era sábio saber escutá-los.

Aprendera com avós, tios, tios-avós e amigos daqueles que já se foram.


Em sua época de faculdade, alugara um quarto na casa de um senhor cujas principais lembranças eram (e haveria outro jeito?) as da Segunda Grande Guerra.

Lutara do lado dos italianos. Fascista, portanto. Nada convicto. Achava Mussolini um fanfarrão, antes mesmo que o termo virasse bordão de filme.


Seu Atílio. Nunca chegara sequer a cabo, salvo engano. Não falava muito sobre o que não queria.

Aos oitenta e muitos, a liberdade estava em não falar ou fazer o que não queria.


Sobre o outro, o austríaco que comandava a Alemanha e todo o Eixo ele não se pronunciava.

Melhor resposta àquilo tudo era Dona Beth. Sim, casara-se com uma judia anos depois. Nunca tiveram filhos. E não dizia o porquê.


Nos momentos em que uma pergunta lhe soasse imprópria, calava. E logo seguia em seu raciocínio anterior, como se o ruído não houvesse existido.

Vestia-se invariavelmente de branco. Paz? Outro silêncio.

Foi em um domingo, véspera de prova. Do quarto, ouviu-se o baque.

Ao abrir a porta, viu Dona Beth com as mãos tentando segurar um grito de uma boca escancarada.

Mais dois passos e ali estava Seu Atílio, caído de barriga para baixo, no chão. Já não respirava.

Hoje faz 22 anos. E o silêncio insiste em ecoar a cada início de janeiro.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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