Ondas no asfalto
Até onde sei|Eugenio Goussinsky

Viu o caminho que se esticava à sua frente, na trilha sinuosa do Minhocão. Sentiu que um mundo submerso habitava aquele asfalto duro. A mesma paisagem, por onde ele dirigia diariamente. As orações silenciosas e os roncos barulhentos eram acolhidos pelo céu, que se esparramava entre a sequência de prédios. Mergulhou então na imaginação, necessária para desanuviá-lo da tensão.
Os prédios viraram gigantes ondas. Transformou-se em surfista. Não percebia a fumaça que inalava. Eram gotículas de uma água verde e cristalina. Nada de carro. Aumentava a velocidade, porém sobre uma prancha. Esquecia o desconforto da roupa social que usava em dias úteis. Sentia-se descalço.
Surfava. Cada fachada ao redor compunha uma massa de água que ele se aventurara a atravessar. Reparava no colorido dos edifícios antigos. Eles sempre lhe pareceram sem graça. Agora, se fragmentavam em várias nuances, como as sete cores se desfazem no turbilhão de um tubo. Tonalidades se multiplicaram.
No arroubo de percepção, notava uma chama viva dentro dos apartamentos desvalorizados pela convivência com a poluição. Lá reinavam sonhos. Reparava nos detalhes de cada construção, enquanto fazia a manobra radical pela quebrada.
Em uma até pôde ver, por trás de pichações, o estilo art déco acenar com formas arredondadas. A beleza original da obra se manifestava sufocada, como uma linda mulher, sofrida, não percebe seu encanto se insinuar sob a pele desgastada.
Não era um chão duro que ele vencia. Era uma superfície refrescante e transparente, que ele cortava de peito aberto, curvando-se para se equilibrar e se levantando quando vinha a calmaria. Ele dançava com a natureza urbana, em evoluções fantásticas.
Observou que, numa das janelas, estava exposta uma bandeira velha do Brasil. Sinal de esperança. Em outra, avistou um morador sem camisa contemplar o sol, com copo de cerveja na mão. Um coração que batia. Na terceira, uma mulher de vestido simples fechou a janela bruscamente. Frustrações da vida.
Todos foram ficando para trás, neste mundo de ondulações frenéticas, enquanto ele se aproximava do término do trajeto, de cerca de 3,4 km. Sentia-se revigorado, como quando se dá um bom mergulho.
Quando a onda foi arrefecendo, ele foi relaxando. Até aterrissar na areia da Francisco Matarazzo, naquele lindo entardecer. E, para seu deleite, aquelas espumas, resultantes da turbulência das águas, estavam se transformando em um tranquilo mar de Água Branca. Fim de domingo. Hora de descer do skate e pegar o ônibus de volta para casa.
