Pai, Filho
Até onde sei|Octavio Tostes

Para Henrique “Irb”
E seu João e tio Marcello, nossos pais
“Saudade do meu Papai. Você sabe o que é isso”. Pelo whatsapp, meu amigo Henrique avisou que seu pai havia falecido uma hora antes. Pediu que participasse aos ex-colegas da faculdade, amigos de décadas. Na véspera, ele e eu tínhamos comemorado meu aniversário e o dele com um dos rituais de nossa amizade: todo mês vamos a um restaurante argentino, nos revezamos na oferta do vinho e ao compartir o bife, damos gracias a la vida.
“Sei e agora teremos mais isso para nos irmanar”, digitei. “É muito melhor do que parece nesse instante. A memória é uma escritora fantástica. Logo começaremos a decifrar esta coincidência (seu João morreu no aniversário do Irb). Cuidado na viagem”, ele pegaria a Dutra para o enterro no Rio.
Dizem que na hora da morte a gente revê a vida num filme. Verei meu pai brincando de luta com os três filhos no gramado da fazenda, quatro crianças risonhas… meu filho, dinheiro eu cavo, e fui à horta cavoucar os canteiros...ele de saída para o trabalho guardando o revólver niquelado na pasta preta, falavam em Grupo dos 11… eu desconsolado pela indiferença da moça de olhar de anjo, ele calado ao volante da Kombi… calado também à mesa da cantina em outro desconsolo meu, mais doído por mais vivido… no cartão postal de Lisboa, a BMW zunindo na auto-estrada o adeus do motociclista no horizonte… na convalescência do câncer falando mal dos parentes, ele até então sempre cerimonioso, discreto e habilíssimo com as palavras que manejava com gosto, fineza e ironia...
Se a memória selecionou apenas estes momentos paternos para meu fugaz grand finale, tem sido pródiga em me surpreender. Me vi igual a meu pai na ternura e na perplexidade diante de minhas ex-enteadas; e no jeito como amei minha ex-mulher no descuido e na cumplicidade. Já faz 25 anos... e ele ressuscita em todo aniversário, páscoa e natal. Quando minha mãe, irmãos e irmã, cunhados, as duas netas mais velhas e eu lembramos dele, a memória nos reúne, acalenta e ilumina.
É isto, Irb. Morre mas sobrevive; trama em nós finitude e eternidade.
Sonho com meu pai. Uma vez, manhã amarela, céu azulzinho como naquele domingo da brincadeira na grama... cheguei não sei mais se de moto ou bicicleta ao portão da garagem de nossa casa em Miracema... entrada dos fundos do sobrado na subida do cemitério onde ele descansa... senti a brisa no vôo indeciso das borboletas... levei um susto embora ansiasse revê-lo...
- Pai… - e antes que eu dissesse mais nada, ele, tão quieto sobre minhas angústias, captou meu espanto ante uma revelação e falou, sorriso nos olhos, lúcido, amargo e acolhedor:
- É… aqui é assim, meu filho.
