Pecado na capital
Até onde sei|Antonio Guerreiro

A bolsa florida e o brinco na orelha não mais o comprometiam. A esta altura, aliás, nem os pesados colares de lata dourada comprados no centro mudariam alguma coisa em sua cabeça ou na dos outros. Estava, além disso tudo, andando em direção a outro freguês e o que lhe vinha à mente, naquele momento, era nada menos que a reprodução de um sonho.
Via-se menino, nunca moleque, brincando com os pós e batons da mãe. Lembrou-se da primeira prova de vestido no quarto da prima Lucinha, trancado e protegido dos olhos de todos. A memória falhou quando seu sapato barato prendeu numa rachadura da calçada e o fez ficar descalço novamente.
E no dia em que resolveu enfrentar o pai, então? A cidade parada. Uns diziam, outros gritavam, mas todos sabiam: Joãozinho do Tomé tinha virado fruta. Que decepção!
Ele ainda tentou argumentar dizendo que a situação na capital era outra. Bailes e shows com muita pompa o esperavam. Iria ganhar muito dinheiro e voltaria, como uma estrela, para ajudar a todos. Seria o fim daquela vida extasiante de trabalho sofrido e pouco remunerado. Brilharia na cidade grande.
Em meio a tantas recordações, a luz do neon da noite à sua frente o trouxe de volta ao mundo. Viu-se sentado na beira da calçada, chorando. Anos depois de sua partida em busca do estrelato, não havia plumas nem luz. Restara apenas o pó amargo do cimento das obras que realizava de manhã para conseguir sobreviver e a luz fosca dos faróis dos carros que vinham atrás de seus serviços à noite. Trabalhava para comer. Não há espaço para a ilusão quando a realidade se impõe.
Sofrendo, respirou fundo, calçou o velho sapato com o salto quebrado e, ainda que desiludido, entrou no carro rumo a uma aventura com final conhecido por todos.
