Que teu partido te abençoe!
Até onde sei|Ligia Braslauskas

A maioria das pessoas acredita que a disputa eleitoral acontece na “briga” direta entre os candidatos, independentemente do cargo. Pois bem, pela lógica do que não se vê, o bastidor dos acompanhantes é quase uma saga familiar, daquelas que podem virar novela.
Sabe aquele estereótipo do candidato que vemos na TV, sempre sorrindo, carregando criancinha, tomando café com pão no boteco, comendo pastel ensopado de óleo? Então, isso é real e tenho pena, pois ele passa mal à beça no final da jornada diária ou sofre de refluxo matinal. Seria tão melhor visitar quitandas!
Mas isso é fichinha perto do que vem depois. Pior mesmo é quando ele entra no carro e pede ao motorista que o leve para casa. Pior por que, você pode estar se perguntando? Explico.
Quando parece que acabou, só está começando.
Vida de candidato não é fácil, não. Depois de visitar oito municípios em um mesmo dia, com três almoços e cinco jantares agendados [e que serão cumpridos à risca, mesmo que comendo com o prato na mão], o que ele mais quer é tomar um trago em silêncio, talvez fumar um cigarro e adormecer sentado já pensando no dia de amanhã.
Mas é justamente nesse momento que começa a disputa interna – ou a declaração: sou seu melhor amigo, só você não sabe.
Assessores, motoristas, amigos, amigos de amigos, desconhecidos, todo o tipo de gente se reúne para velar o apagão do candidato e discutir a campanha, os próximos passos, sem respeitar o desejo daquele que sonha com os braços de Morfeu.
O candidato não pode apenas pensar no seu mundinho, ele tem de pensar em todos que o rodeiam e que deixam claro necessitar da ajuda dele quando eleito. Leia-se: emprego.
Essas ventosas são implacáveis. Falam mal uns dos outros, fazem fofoquinha, brincadeiras de mau gosto, puxam o saco na cara dura – até inventam maneirismos, coisas que julgam ser segredos próprios de cada um deles com o candidato.
Ah, candidato. Se soubesses quantos filhos conquistastes em sua campanha, certamente entenderias mais cedo que quantidade não significa qualidade, mas custa um bocado caro.
Ps. Por favor, candidato, depois de tudo, não percas. Sua derrota será julgada por todos os que não se empenharam o suficiente, mas serás o Judas, o amigo da serpente. Que teu partido te abençoe!
