Saudade
Até onde sei|Ligia Braslauskas

Ameaçara ir embora. Assim, de uma vez, mas foi esvaindo-se aos poucos.
Num primeiro momento, ninguém se deu conta de que se tratava de uma punição, severa, porém lenta. Acreditaram ser apenas um sobressalto, uma notícia que não ganharia forma nem fama, que o viés denuncista seria apenas mexerico.
Pena não ter sido verdade a ideia da falsa verdade. Pena não ter sido respeitado o limite da vaidade que se lançava por diferentes lados e matérias.
Pensavam: não me deixarás.
Mas chegara o dia de encarar o fato que nos ameaça havia meses, e para o qual não haveria escapatória.
Nem tonéis nem bacias. Nem nada côncavo. Nem as mãos em concha sublime como uma cama macia para recebê-la. Nada. Ela não voltaria.
A partir de agora havemos de prosseguir sem ela, invejando outros Estados, outros governos, outras mentalidades, outras pequenas vilas. Até àquela que corre rente ao meio-fio.
E acredite, ela parte sem piedade, sem nenhum remorso, sem dor e sem culpa. E sorri, maliciosa, como quem sabe que a falta de desvelo elimina, castiga, desforra.
Adágios não serão mágicos para trazê-la de volta.
Conformemo-nos com a partida forçada pela falta de cuidado. Ela já não está. A imagem que dela temos hoje mora no poço, sobre um lençol morto e envolta em metais pesados.
Foi-se sem deixar rastro, nem bilhete.
Desta água já não beberás, Cantareira!
