Silva (parte 1)
Até onde sei|Antonio Guerreiro

O barulho constante da serra elétrica quase impedia a conversa no segundo andar de uma modesta marcenaria na Rua Almeida de Moraes, Vila Mathias, em uma tarde ainda ensolarada do verão de 1972 em Santos, litoral de São Paulo. Apesar do ruído, dois homens tratavam de acertar prazos e preços. Ambos ocupavam cadeiras baixas em torno de uma mesa ovalada onde repousavam duas xícaras de café com cores diferentes. O mais alto deles usava um pequeno bloco de anotações e um lápis gasto com uma borracha enegrecida na ponta, o que não o impedia de levar o objeto à língua cada vez que um novo apontamento precisava ser feito. Falava mansamente e entremeava um valor e outro com francos sorrisos que deixavam seus dentes bem tratados à mostra. Sob a visão do outro, mais baixo, parecia fazer parte daquele cenário de final de dia, à frente da janela que, apesar de empoeirada, permitia a entrada de uma luz difusa que contornava seu perfil em contra luz, enquanto lá fora o sol começava a dar os primeiros sinais ao poente.
Santos tem a peculiaridade de ver o sol nascer em outro município, São Vicente, próximo à Ilha Porchat e acompanhar sua despedida diária quase no Guarujá, outra cidade próxima. Em 1972, o verão durara mais que o esperado e não eram raras as previsões de claridade mesmo após as 19h, o que animava a população ávida por um momento de lazer nos 8 km de jardins e praias da cidade após um dia estafante de trabalho em sua maioria no comércio local, sustentado pela atividade incessante do maior porto da América Latina, onde cerca de 80 cargueiros chegavam e zarpavam a cada mês. Se o sol servia de estímulo a uns, adiava os planos de uma parcela da população santista que não era computada nos censos regulares promovidos a cada cinco anos pelo regime militar imposto no Brasil. Longe das pranchetas dos pesquisadores que usavam as palmas das mãos como campainha ao chegarem às casas de família para aferir a quantidade de pessoas e bens que estas dispunham, uma outra gente aguardava a noite para ser notada. Era ao cair do sol que, a exemplo das grandes cidades, Santos mostrava seu lado sombrio, escondido das estatísticas oficiais. A clara tranquilidade cedia lugar a trapos, sujeiras, odores desagradáveis e à incômoda sensação de busca por um espaço a salvo que acompanha aqueles que vivem e fazem da rua o seu sustento. Estima-se que, somente na região periférica do porto, naquele início da década de 70, 10 mil pessoas não pudessem responder ao bater de palmas de pesquisadores, visitantes, carteiros ou vendedores pelo simples fato de não haver porta a ser aberta ou bens a serem contados. Crianças, mulheres e homens classificados como mendigos.
(Continua...)
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