Logo R7.com
RecordPlus
R7 Entretenimento – Música, famosos, TV, cinema, séries e mais

Silva (parte 10)

Até onde sei|Antonio Guerreiro

  • Google News

Leia a parte 1.

Leia a parte 2.


Leia a parte 3.

Leia a parte 4.


Leia a parte 5.

Leia a parte 6.


Leia a parte 7.

Leia a parte 8.


Leia a parte 9.

Foi em um início de noite de terça-feira. Luis não tinha sequer um pedido a atender na loja que mantinha sem a ajuda de qualquer funcionário. Havia um catálogo amarelado sobre o balcão, um copo de cerveja a seu lado e uma vista que se dividia entre as páginas à sua frente, com contos eróticos relatados por leitores de uma revista e a rua por onde a movimentação de carros era nem mais nem menos intensa que em qualquer outro dia naquele horário. Terminou a bebida, pegou as chaves, trancou a porta e seguiu caminhando, como todos os dias, em direção à São João, onde outra garrafa o esperava. Casais passavam de mãos dadas, crianças corriam ainda vestindo seus uniformes escolares surrados, ônibus brecavam abruptamente, como sempre. Bebeu a cerveja, disse uma ou outra palavra com alguém e, assim que a noite caíra, seguiu para casa.

Ao seu lado, o povo da rua começava a sua busca incessante por restos de comida, moedas, jornais, papelões, papéis e marquises. A luz de fora da casa estava acesa. Dentro, apenas o abajur do canto da sala. A ausência do barulho, das conversas, do cheiro de comida no fogão foi a primeira sensação que Luis teve em sua nova vida a ser anunciada em poucos minutos por uma singela carta sobre a mesa da cozinha. Não havia roupas nos armários, brinquedos em suas caixas, não havia sequer a TV. E, principalmente, não havia mais esperanças.

Antes de dar o primeiro passo no corredor proibido ao repórter, Luis diz não lembrar do que estava escrito na carta. Talvez nem a tenha lido. A casa explicava melhor. Durante 10 dias manteve a rotina. No décimo-primeiro passou a não tomar mais banho. O aluguel da loja, atrasado há algum tempo facilitou as coisas. Havia menos a fazer, senão esperar. Um disse que estavam no Maranhão, outros que o destino teria sido o Piauí. Pensou em ir a Belém, mas não teve força, dinheiro ou coragem. A casa foi-se em seguida. Um colega da Facit ainda tentou ajudar, mas Luis passou dias vagando pela praia do Gonzaguinha, em São Vicente, pelo Casqueiro, em Cubatão, por toda Santos. Voltou à Vila Mathias e lembra de ter chorado pela primeira vez. Em frente à marquise amarela da Almeida de Moraes, já sem a placa “MARCENARIA”, onde recusou-se a dormir.

São 23 anos fazendo parte de uma comunidade invisível, considerada o lado sombrio, escondido das estatísticas oficiais. Uma gente ligada a trapos, sujeiras, odores desagradáveis e à incômoda sensação de busca por um espaço a salvo que acompanha aqueles que vivem e fazem da rua o seu sustento. Estima-se que, somente na região periférica do porto, neste início de século 21, 17 mil pessoas não possam responder ao bater de palmas de pesquisadores, visitantes, carteiros ou vendedores pelo simples fato de não haver porta a ser aberta ou bens a serem contados. Crianças, mulheres e homens classificados como mendigos.

Entre eles, um que segue em direção a sua cama no abrigo municipal. Um homem chamado Luis Carlos da Silva.

FIM.

Leia a parte 1.

Leia a parte 2.

Leia a parte 3.

Leia a parte 4.

Leia a parte 5.

Leia a parte 6.

Leia a parte 7.

Leia a parte 8.

Leia a parte 9.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.