Silva (parte 2)
Até onde sei|Antonio Guerreiro

A Vila Mathias é parte da periferia portuária, embora desfrute de uma certa complacência por parte dos bairros mais próximos à praia, como o Gonzaga, seu vizinho mais rico. Muitos dos moradores que desfrutam da brisa marítima ao abrir as pesadas janelas de seus apartamentos, tiveram ou mantém ainda algum parente morando nesta Vila formada por 43 ruas e vielas que cortam ou seguem em paralelo à principal avenida do bairro, Ana Costa. Nas missas de domingo, na Igreja do Coração de Maria é possível ver mães espanholas e portuguesas com seus lenços decorados sobre as cabeças e ombros tentando domar seus pequenos enquanto os pais, de mesma origem, misturam seus sotaques em preces à mãe de seu Deus católico. A cada data religiosa, procissões tomam o bairro e as preces cedem lugar a cantos com os mesmos sotaques e fé redobrada. Armazéns de secos e molhados, escolas infantis, padarias, revendedoras de autos usados, mercearias, bares e açougues mantém vivo o dia a dia destas famílias em grande parte numerosas, que mantém a tradição oral das histórias contadas de geração a geração por bisavós, avós e mães sentadas em cadeiras de praia espalhadas pelo cimento das calçadas em frente às portas abertas de casas onde se pode ouvir uma nevitas ou um fado em vitrolas brancas e azuis. Sempre ao cair do dia, não tão longe dos quilômetros de areias da praia, mas perto demais da negra água do mar portuário.
A torre da Igreja ainda vibrava com a quinta das seis badaladas do sino do Coração de Maria indicando 18h quando o ruído da serra elétrica cessou. Os dois homens fizeram o sinal da cruz. O mais baixo levantou-se. O outro encaixou o lápis na orelha direita e apertou a mão estendida à sua frente. Enquanto o cliente descia os degraus da escada de madeira crua, Luis Carlos da Silva, um filho de portugueses de 28 anos, sentava-se novamente em frente à janela, fechando o bloco de anotações. Eram mais dois pedidos feitos. Outro mês sem maiores preocupações que não fossem baratear os custos de mão de obra e material para que o lucro pudesse ser melhor. Deixou o lápis sobre a mesa, calçou seus sapatos, sempre dispostos ao lado de sua cadeira e desceu em direção ao andar térreo, onde o último de seus dois funcionários o esperava junto à porta. Saíram juntos, e logo se separaram. Luis atravessou a rua e preparava-se para virar a esquina rumo a avenida Ana Costa, que cruzaria sem muito esforço para andar mais duas quadras e chegar à Antonio Bento, onde, se ainda desse sorte, veria sua mãe e esposa, lado a lado, sentadas em suas cadeiras de praia, tricotando fossem pontos na lã ou palavras com as vizinhas, enquanto sua pequena Andréia ensaiava os primeiros engatinhos. Essa era a cena real que aguardava Luis, que antes de virar a esquina da Almeida de Moraes parou e olhou com orgulho para a fachada de seu pequeno negócio onde uma placa feita de madeira envernizada trazia talhado “MARCENARIA”. Assim, sem nome, sobre a marquise amarela.
É difícil precisar o que define a hora de recolher as cadeiras, se os sete toques do sino, o sol que parte por aquele dia ou o início da movimentação de pessoas que não pertencem àquele local, visto que tudo acontece ao mesmo tempo. O fato é que as cadeiras dão lugar a papelões, a gritaria de crianças em festa abre espaço ao choro contido de mães e seus filhos famintos e a parca iluminação das ruas parece não proteger as portas e algumas janelas ainda abertas nos primeiros minutos de uma noite de verão. Os becos do bairro ganham um outro tom nas cores e nos sons e uma outra procissão percorre a avenida, em busca de espaço, comida e conforto. Sem fé.
