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Silva (parte 3)

Até onde sei|Antonio Guerreiro

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Leia a parte 1.

Leia a parte 2.


Uma única e singela badalada apontava 21h30. Luis beijou a esposa, espiou a filha que já dormia e descansou os cabelos ainda molhados pelo banho em seu travesseiro no quarto da frente da ampla casa de três quartos que dividia com a mãe. Morava ali desde que nascera, em junho de 1944, época em que seu pai trabalhava como chofer de praça na mesma Vila Mathias. Seu Coimbra, como era conhecido, pela origem, não pelo nome, dividia o volante de um táxi em turnos de 12 horas com outro motorista. Nenhum deles era o proprietário do automóvel que pertencia a um ex-inspetor do cais que vivia de renda. Da renda deste e de outros dois carros de praça, dizem, que comprados com dinheiro incompatível com sua retirada de aposentadoria.

Luis sorriu e sentiu o gosto do chocolate que o pai lhe trazia às sextas feiras, embrulhado em papel vermelho, como uma surpresa que se repetia a cada semana em um jogo de carinhos e certezas entre pai e filho. Dona Marta, sua mãe, fazia vistas grossas àquela pequena extravagância familiar, certa de que a alegria de ambos compensava a despesa. Havia 10 anos que Seu Coimbra se fora. Tudo havia sido rápido. Da primeira queda e internação ao funeral foram pouco mais de 3 meses. Luis, aos 18 anos de idade, recém dispensado do serviço militar, tinha agora uma mãe, uma casa, nenhuma economia e uma enorme lacuna a suprir. O emprego como bedel em um curso vespertino foi talvez a única ajuda que recebera naqueles dias. O companheiro de carro do pai acionara um conhecido que falara com um amigo e lá estava Luis, de olho em jovens como ele à frente dos corredores da Escola Coelho Neto, no centro de Santos. E foi nas oficinas da escola que Luis desenvolveu aquilo que transformaria em seu ofício. Durante as manhãs, por sete meses, aprendeu a cortar, lixar e, aquilo que considera principal, moldar a madeira. Trocava horas de trabalho por aulas de marcenaria. Não tardou e, no final do ano em que perdera o pai, o jovem Luis trouxe seu primeiro chocolate de presente para a mãe. Embrulhado em papel vermelho, numa sexta-feira.


O décimo toque do sino na torre da Igreja fez com que a pequena Andréa gemesse em seu berço e Luis despertasse de seu sonho acordado. Foram-se 10 anos. Da escola a serviços gerais de um consultório médico, das salas de exames à construção, sempre sob encomenda, de pequenos armários e balcões dos negócios dos pacientes e seus acompanhantes. Dos pedidos esporádicos aos constantes. Em uma década, chegara ao seu próprio negócio. Uma modesta marcenaria, de fachada amarela, onde, sem que ele soubesse, neste exato momento, uma família de três mendigos tentava acomodar-se sobre finas fatias de pano, sob a marquise.

Luis adormeceu.


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