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Silva (parte 4)

Até onde sei|Antonio Guerreiro

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O barulho inconstante dos carros freando apressadamente quase impedia a conversa na calçada em frente a um abrigo da Prefeitura de Santos, na rua Carvalho de Mendonça, Campo Grande, em uma tarde ainda ensolarada do verão de 2007 em Santos, litoral de São Paulo. Apesar do ruído, dois homens tratavam de acertar locais, nomes, datas e lembranças. Ambos estavam em pé e nenhum deles bebia coisa alguma. O mais alto usava um pequeno bloco de anotações e uma caneta que balançava vez ou outra como se forçasse a tinta a pegar. À sua frente, um homem falava mansamente e entremeava uma lembrança a outra com duras expressões que escondiam seus olhos e dentes mal tratados. Estranhamente parecia fazer parte daquele cenário de final de dia, à frente da rua que, apesar da fumaça, permitia a presença de uma luz difusa que contornava seu perfil contra o sol que começava a dar os primeiros sinais ao poente.


O abrigo recebe diariamente cerca de 200 moradores de rua que são atendidos por uma equipe formada por 20 pessoas, a maioria homens, entre funcionários públicos e voluntários. Os indigentes ganham direito a banho, uma sopa e 70 deles, os primeiros a chegar ou aqueles que são inscritos em programas especiais da Prefeitura santista têm à disposição uma cama de ferro com um ralo colchão para uma noite. Chegam às 19h e saem às 7h, com ou sem destino definido. Naquele início de noite, um dos homens que conversavam na calçada tinha na mão direita, repleta de calos nos dedos, um papel picotado com o número 60 impresso, quase borrado. Nas próximas horas assim ele seria chamado. O 60, dois algarismos que substituiriam o nome impresso em uma não mais localizada carteira verde de registro geral. 60. A dezena que tomaria o lugar do sobrenome, da história da família, dos 63 anos de algumas lembranças que ainda insistem em manter-se vivas na memória daquele que um dia fora batizado e conhecido por Luis Carlos da Silva.

A marquise do abrigo nada tem de amarela, é de um cinza com tinta descascada que não raro, despeja seus pedaços sobre os que circulam pelo local. A lembrança do filho de portugueses, ex- empresário, embora presente, também parece acinzentada, confusa, resistente às constantes perguntas do interlocutor que, misturadas ao barulho dos carros e ônibus passando em alta velocidade soavam como uma espécie de mantra às avessas, destinado a desconcentrar, a distrair, perfeito para a fuga. Em meio às buzinas, vozes e arranques de motor, um som predominava na mente do mendigo Luis. Seus olhos parados pareciam fitar as horas de uma torre agora imaginária, com um badalo de sinos cada vez mais forte em seus ouvidos.


A rotina na casa da Antonio Bento alterara-se pouco entre 72 e 74. Dona Marta continuava a tricotar e a principal novidade – e alegria da família – tinha sido a chegada de André, o caçula dos Silva, irmão da ainda pequena Andréa, filho de Luis. Os negócios seguiam em próspera atividade. A marcenaria dobrara o número de funcionários e pedidos. Agora eram quatro homens atendendo a uma média de oito encomendas mensais. O andar de cima continuava com sua janela empoeirada, sua mesa ovalada e um proprietário cada vez mais ciente de que investira cada centavo que faturara da maneira correta. O que antes soava como economia, agora era fonte de prazer. Luis fez questão de desenhar o berço do novo rebento e só não aplicou ele mesmo a tinta branca que cobriria a madeira lixada por insistência de um de seus funcionários que não concordava em ver o patrão sujo de tinta, como se o empresário de 30 anos acalentasse ainda algum tipo de vaidade. Lorena, sua esposa, não cansava de exaltar suas qualidades ou mesmo dotes físicos e, embora soubesse que não correspondia à imagem descrita pela companheira, aceitava os elogios como prova de amor.

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