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Silva (parte 5)

Até onde sei|Antonio Guerreiro

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A velocidade da virada das folhas do calendário acompanhava o crescimento de Santos. A cidade deixava, pouco a pouco, de ser tão dependente de seu porto e novos empresários, em sua maioria vindos da capital São Paulo, distante apenas 70km serra acima, impulsionavam positivamente a economia da região. Cada vez mais o termo Baixada Santista firmava-se, explicitando a cidade natal de Luis como líder da região. São Vicente, Praia Grande, Cubatão e Guarujá começavam a adquirir contornos de cidades-satélites de Santos.

Tanto A Tribuna quanto A Cidade de Santos, principais periódicos santistas exaltavam a migração dos negócios em direção à cidade em suas editorias de economia (“Investimento será maior que o esperado”), comportamento (“Moda da Capital mostra forte influência na baixada”) e as colunas sociais deliciavam-se com os novos personagens que desciam as famosas e cantadas curvas da estrada de Santos, a Anchieta. Mas, novamente, havia aqueles distantes do noticiário, fora do eixo de atenção da cidade desenvolvimentista. O progresso crescia e, com ele, aumentava também a desigualdade social quando inúmeras famílias, em busca de adquirir seu quinhão naquele processo, migravam para a cidade e fixavam pequenas residências improvisadas em terrenos baldios ou povoavam ainda mais as marquises ao cair da noite santista.


No andar que ficava sobre a marquise amarela da marcenaria de Luis, a mesa não era mais ovalada. Tinha cedido lugar a duas outras retangulares. Uma maior, para reuniões e outra menor, porém mais rebuscada, trabalhada em detalhes, onde o proprietário trabalhava, ainda de costas para a janela. Em sua mesa, fotos em preto e branco do pai, mãe, da esposa e de seus três filhos. Sim, logo após Andréia, Lorena engravidara de Ricardo, o bebê mais tímido do casal. Junto aos porta-retratos, blocos com formulários de pedidos, confirmações de entrega e o calendário marcando o ano de 1976. Em agosto daquele ano, Luis, com 32 anos, recebera a principal proposta desde que sua marcenaria começara a funcionar. Um dos empresários vindos da capital, que conhecia o médico do consultório onde Luis trabalhara tempos atrás, fez a encomenda de dezenas de armários, gabinetes e outros tantos objetos de madeira para mobiliar um hotel a ser inaugurado em 1977, quando Santos ganharia o seu primeiro Shopping Center, o Balneário, idealizado pelo arquiteto Cláudio Doneaux, em frente à praia do Gonzaga.

Com o adiantamento dado, Luis pôde realizar um sonho que mantinha guardado nos últimos anos. Comprou um Landau branco, com teto negro, câmbio preso ao volante e extensão que o fazia ser chamado de transatlântico terrestre. O segundo passo, mais doloroso para Dona Marta, foi deixar a casa da Vila Mathias. Os novos tempos pediam novos lares, mesmo que não tão distantes, ainda que não propiciassem a tão almejada chegada aos empreendimentos à beira-mar. Com a venda da casa da Antonio Bento, foram-se juntos os contatos diários com vizinhos que há décadas acompanhavam a história da família. Deixavam para trás as portas coladas às calçadas, o buzinar do carrinho do padeiro e seus sonhos com recheio de chocolate, a mercearia CEMA, a confeitaria Peg-Pão, o medo da casa dos ciganos da rua de baixo, o prazer das cadeiras de praia no cimento ao final de cada tarde e o acolhedor ressoar dos sinos da Igreja Coração de Maria.


No início de 77, Luis, Dona Marta, Lorena, Andréia, André e Ricardo chegaram à rua Vidal Sion, bairro da Encruzilhada, uma espécie de parte baixa do Gonzaga, colada à linha do trem e à estação Sorocabana. Luis havia comprado um modesto apartamento de dois quartos no último andar de um prédio de três pavimentos, sem elevadores e com fachada cor-de-rosa. Dona Marta nunca entendeu a decisão do filho de abandonar uma humilde, porém confortável casa de amplos três quartos, áreas de serviço, banheiros e corredores amplos e quintal, para confinar a família em um espaço de pouco mais de 60m² em um bairro considerado mais nobre. Se aquilo era o chamado progresso, a portuguesa preferia dispensá-lo. A obra do hotel seguia adiantada e, apesar disso, os móveis ainda não haviam sequer começado a ser desenhados. Luis maravilhara-se com o novo estilo de vida. Era comum vê-lo conversando com amigos no Café Carioca, ao lado da Prefeitura Municipal, estacionando seu Landau em frente ao bar do hotel Atlântico e cada vez mais distante da família e seu trabalho. Aos seis anos de idade, Andréa, a filha mais velha, ainda não frequentava a escola, o que aconteceria a partir do ano seguinte. Lorena insistia em matriculá-la no Grupo Escolar Cesário Bastos, escola estadual que gozava de prestígio entre os moradores da Vila Mathias, mas Luis reafirmava que filho seu só estudaria em escola particular. Ao final de 77, mais de um ano após a encomenda e com meses de atraso na entrega, o empresário foi ao cliente. Argumentou que a matéria-prima que recebera não era de boa qualidade, que havia optado por um material melhor e, por isso, além de repetir as desculpas pelo atraso, necessitava de mais uma parcela do pagamento. Em suma, outro adiantamento. Apesar da relutância, o cliente, um sujeito de nome Oswaldo, responsável pelo pedido, aprovou a solicitação.

O fato é que pouco ou quase nada da encomenda havia chegado à fase de produção. Os empregados notavam o descontrole do chefe que a cada dia comparecia menos e distribuía mais nãos como resposta. A virada de 77 para 78 no apartamento da Vidal Sion trouxe um ingrediente extra à ceia que desfrutaram em família. A preocupação de Lorena com o futuro. Seu, de seu marido, mas, principalmente, das crianças que ainda brincavam com os presentes de natal recebidos uma semana antes das mãos do pai. Uma bicicleta Caloi dobrável, recém-lançada pela fabricante, uma bola alusiva à Copa do Mundo da Argentina e uma fantasia de princesa.

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