Silva (parte 6)
Até onde sei|Antonio Guerreiro

O barulho constante dos trens de carga quase impedia a conversa no terceiro andar de um modesto apartamento na Rua Vidal Sion, Encruzilhada, em uma madrugada do início do verão de 1978 em Santos, litoral de São Paulo. Apesar do ruído, Luis e Lorena tratavam de acertar suas vidas. Ambos ocupavam cadeiras baixas em torno de uma mesa redonda onde repousavam duas xícaras de café com cores iguais. Ele usava um pequeno bloco de anotações e um lápis gasto com uma borracha enegrecida na ponta, o que não o impedia de levar o objeto à língua cada vez que precisava anotar quanto dinheiro lhe faltava para entregar o que havia prometido. Pouco falava e entremeava um valor e outro com tímidos olhares que deixavam seu início de aflição à mostra. Sob a visão da esposa, mais baixa, confirmava a impressão de ser o personagem principal daquele cenário de final de sonhos, à frente da janela que, apesar de limpa, não trazia luz alguma, enquanto lá fora a lua continuava a esconder-se atrás das nuvens. Eram os primeiros sinais do poente de Luis.
O resultado da conversa fora o esperado. Eles não tinham condições de arcar com o combinado. Ainda assim o empresário não aceitara a hipótese de ter seus filhos estudando na escola pública, mesmo que de boa qualidade. Sairia na manhã seguinte para comprar os uniformes e efetivar a matrícula de Andréia e do filho do meio, André, no Liceu São Paulo, também na Vila Mathias. Apenas aceitara abandonar a intenção de alfabetizá-los no São José e Santista, respectivamente, as melhores instituições de ensino para meninas e meninos na Santos do final dos anos 70. Nos quartos, Dona Marta e as três crianças sonhavam com uma realidade à qual eles não mais pertenceriam.
A falência foi questão de meses. Com as duplicatas assinadas, o cliente conseguira tomar o pouco que ainda sobrara daquilo que um dia havia sido a marcenaria de Luis. O Landau foi-se em seguida. Lorena definhava e Dona Marta começava a dar os primeiros sinais do mal de Alzheimer que a venceria três anos depois. Com a mãe presa a uma poltrona da sala a maior parte do tempo e a esposa chorando na cozinha enquanto passava o ferro nos uniformes de uma escola que sabia que não tinha mais condições de pagar, Luis, aos 34 anos, sabia que teria que voltar àquilo que conhecera um dia. O trabalho.
Às 19h03 um senhor de cabelos inteiramente brancos abriu a pequena janela do abrigo da Carvalho de Mendonça e, em seguida, destrancou a porta. Lentamente, os cerca de 80 moradores de rua que ali se encontravam começaram a entrar, em uma disciplina de causar inveja àqueles que costumam frequentar filas em cinemas, teatros ou restaurantes típicos da classe média-alta das grandes cidades. Quando chegou a vez de Luis, o homem com o bloco de notas nas mãos o acompanhou. As paredes internas de pé-direito altíssimo mostravam um ligeiro sinal de mofo próximo ao teto de ripas de madeira envernizada. Luis acompanhou o olhar do repórter e pareceu querer dizer alguma coisa, mas manteve-se calado. Ao menos a boca não emitira qualquer som, mas seus olhos parados e, pela primeira vez, um tanto marejados falavam por ele. Ao chegarem ao ambiente interno, os mendigos recebem o kit de limpeza, composto por um microssabonete e uma toalha embalados em saco plástico e seguem rumo ao banho. Como 28 anos atrás Luis havia feito em uma manhã de segunda-feira, início de março de 1979, em seu apartamento em Santos.
O final do segundo semestre de 78 havia sido pior do que qualquer projeção que Luis pudesse ter feito. O máximo que encontrara tinha sido um trabalho temporário no caixa de um posto de gasolina na esquina de sua rua com a avenida Ana Costa, em frente ao edifício da Prodesan, sigla para Progresso e Desenvolvimento de Santos, órgão da Prefeitura. O Liceu encaminhava cartas atestando a falta de pagamento das mensalidades escolares e Lorena por duas vezes saíra chorando do colégio após conversas com a direção. O relacionamento entre os dois praticamente acabara. Existia apenas em função das crianças e do tratamento de Dona Marta, cada dia mais distante do que acontecia no mundo real. Luis tentara procurar os amigos de Seu Coimbra na parada doscarros de praça, já chamada de ponto de táxi, mas os nomes e rostos haviam mudado. Um ou outro personagem ainda o olhava com uma certa dúvida, mas ninguém íntimo suficiente para que uma ajuda fosse solicitada. Dívidas por toda a parte. E dinheiro, muito dinheiro em suas mãos, diariamente, no caixa do posto de gasolina.
Aconteceu naquela segunda-feira. Após o banho, Luis despediu-se da mãe com um beijo não retribuído, fez um carinho na cabeça de Ricardo que brincava no chão da sala e, sem olhar para Lorena, bateu a porta de casa e desceu apressadamente os três lances de escada que o separavam da rua e de seu intento. Chegou ao posto no horário costumeiro e, pouco antes do meio-dia, perto da primeira sangria de caixa, retirou um maço de notas do fundo da gaveta da registradora. Ainda observou o volume, viu o elástico que o compactava e, sem mais pensar, o introduziu em sua cueca. O coração batia rapidamente e a adrenalina fazia com que suas mãos tremessem. Pediu ao colega que lhe rendesse, pois precisava dar um pulo à sua casa e voltaria em poucos minutos. Deixou o posto já arrependido, mas a tarefa de recolocar o maço em seu lugar, agora que a sangria estava sendo feita, tornava-se mais complicada. Seguiu a passos rápidos, mas não subiu ao prédio. Tentava imaginar o que diria a Lorena, onde teria conseguido o dinheiro para quitar o colégio das crianças, fazer a feira, o supermercado decentemente?
Quinze minutos após ter saído de sua posição no caixa, voltava com o dinheiro escondido no mesmo local. Em poucos segundos, a gaveta da registradora recebia de volta as cédulas envoltas em elástico. A diferença foi acusada no fechamento do caixa, quando o resultado da primeira sangria fora relatado, mas a impressão de que o outro funcionário não vira o restante do dinheiro prevaleceu. Afinal, a soma batia ao cair da tarde. Nada mudara, nem mesmo o crescente desespero de Luis.
