Silva (parte 7)
Até onde sei|Antonio Guerreiro

O trabalho no posto era restrito a uma cobertura de férias. Tentou empregar-se em marcenarias, após a insistência da esposa, mas o progresso confirmava que estava ali principalmente para aqueles que apareciam nos jornais. A massa que os acompanhava trocava um terreno baldio por outro, um casebre por um menor, uma marquise por um toldo. No caso de Luis, a casa própria pela alugada. A decisão de venda do apartamento da Vidal Sion fora realizada por impulso, em um dia em que Lorena foi ao açougue e trouxe de volta apenas quatro salsichas. Ao cozinhá-las sob o olhar das crianças à mesa, a mulher descontrolou-se. Com família morando no distante e exótico Pará, Lorena conversava, no máximo, uma vez a cada dois meses com algum familiar. Não tinha mãe desde os 5 anos e o pai nunca fora presente. Chegara a Santos com a tia, no meio da década de 50, como tantos outros migrantes em busca de algo que nem eles mesmo sabiam o que seria. Lorena achou a resposta na família de Dona Marta e Seu Coimbra. Conhecera Luis após uma visita de cortesia de sua tia, nova vizinha, ao casal de portugueses. Foi seu primeiro e único homem. Após a morte prematura da tia, foi praticamente adotada pelos futuros sogros. Naquele dia, porém, pela primeira vez, pensou em voltar à sua cidade, à sua casa, mas sabia que a situação no norte do país e, principalmente, a da sua família não fugiria em nada à daquele cenário que via na mesa da cozinha, tendo que, ao lado do marido, mais uma vez fingir aos filhos que não estava com fome.
O valor recebido não foi significativo, mas trouxe um outro alento aos Silva. A mudança foi silenciosa, com um misto de pesar e alívio no casal. O destino fora a rua Joaquim Távora, próxima ao estádio da Portuguesa Santista, periferia de Santos, em um modesto bangalô com três quartos não tão amplos, boa sala, cozinha e banheiro e um quintal maior que aquele da Antonio Bento. Um início de década de 80 que ousava parecer promissor.
Antes do banho, os moradores de rua são orientados a deixar seus pertences em um grande armário, próximo à entrada principal do abrigo. São poucos os que têm algo a depositar naqueles boxes de metal. A maioria carrega uma sacola de supermercado com poucos itens e veste a mesma roupa suja depois de sair do chuveiro. Após a higiene são orientados a formar fila para receberem a sopa. Um caldo de legumes com pedaços de músculo bovino e um pão francês são acompanhados por um copo de suco de laranja. Enquanto sorve o líquido da colher de plástico, Luis conta como teve o primeiro contato com as instituições que amparam os que não têm onde viver, senão nas ruas.
