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Silva (Parte 8)

Até onde sei|Antonio Guerreiro

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1980 colocara a vida da família Silva em aparente normalidade. As crianças, agora com Ricardo também, foram para a escola pública. O débito com o Liceu foi quitado com uma parte da venda do apartamento. Contas de água, luz, mercearia – que há meses havia cortado o crédito de Lorena – também foram acertadas. Sobrara pouco do que haviam construído, mas o saldo ainda era positivo. Com a autoestima menos abalada e sem a necessidade de uma corrida injusta contra os minutos, Luis, novamente por intermédio de um colega de um colega, desta vez, do posto de gasolina, conseguira um emprego de vendedor das máquinas de escrever Facit, na praça da República, centro da cidade, em frente ao prédio da Alfândega, famoso por, anos antes, servir de observatório àqueles que desejavam espiar, mesmo que não assumidamente, o Raul Soares, famoso navio que ficava permanentemente atracado em alto-mar, na direção da Aduana, com presos políticos do regime militar.


Luis entendia tanto de máquinas de escrever quanto de qualquer outro apetrecho que jamais tivesse usado em toda a vida. Não que este fosse o caso, já havia sim tilintado algumas teclas vez ou outra, mas nada que lhe desse condições de conhecer o funcionamento, as engrenagens, o que faria uma máquina ser considerada melhor ou pior que a outra. Para isso teve a ajuda de Jorge, um vendedor quatro anos mais velho que ele e com expressiva experiência naqueles produtos. Jorge foi mais que um orientador profissional. Foi amigo de Luis. Embora o salário não permitisse, Luis constantemente o convidava a uma estendida ao Carioca para um ou outro pastel acompanhado de cerveja. Lorena não queria esconder a satisfação de ver o marido de volta ao trabalho, mas com os três filhos em idade escolar e a sogra em constantes idas e vindas à Santa Casa, ficava difícil demonstrar qualquer tipo de afeto ou reconhecimento à recuperação de Luis. E, na verdade, Lorena ainda desconfiava que o esposo pudesse, mais uma vez, deslumbrar-se com a falsa impressão de uma vida estável. Moravam de aluguel, a lista de material escolar era multiplicada por três, o custo com os remédios de Dona Marta aumentava a cada dia, havia alguns procedimentos que o INPS não cobria, enfim, a pequena reserva que haviam conseguido com a venda do apartamento não existia mais.

Luis parecia não reparar nas angústias de sua esposa. Ao receber o primeiro salário em seu novo emprego não comprou um Landau, continuou andando de ônibus, mas trouxe para casa um novo aparelho de TV que comprara financiado. Vieram um novo fogão, uma geladeira mais moderna e novas dívidas. Jorge alertava o amigo sobre os riscos, falava que a empresa não ia tão bem assim e propôs que Luis, ao invés de gastar seus rendimentos em aparelhos para a casa, investisse em um novo negócio. Seriam sócios em uma modesta fábrica de móveis planejados. Eufemismo para marcenaria? Talvez, mas com pouco mais de um ano de emprego, Luis sairia da Facit para, sem qualquer lastro, alugar um pequeno estabelecimento na avenida Bernardino de Campos, destinado a planejar e executar móveis sob medida para residências e estabelecimentos comerciais. Jorge, seu sócio investidor, continuou com suas atividades diárias na revendedora de máquinas de escrever na praça da República.

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