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Silva (Parte 9)

Até onde sei|Antonio Guerreiro

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A notícia de sua saída do emprego fixo foi recebida muito mal em casa. Só não houve reação pior porque as atenções estavam voltadas para Dona Marta, agora já repousada inconsciente em uma maca na enfermaria da Santa Casa de Misericórdia de Santos. As primeiras semanas do novo negócio foram marcadas pela cor negra do luto pela memória de Dona Marta. A mãe não vira o filho tentar e quase conseguir dar a volta por cima na vida. Estacionara em sua queda, seguiu com a família fisicamente, mas nunca tirou de si as lembranças da Vila Mathias, o aroma de café forte vindo da vizinhança pelos muros baixos de todas as casas, as pedaladas nas máquinas de costura Singer com as amigas, a chegada de Coimbra e suas barras de chocolate envoltas em papel vermelho. A vida de Dona Marta não cruzou a fronteira entre a Vila Mathias e a Encruzilhada.

Os olhos vermelhos deixam cair a primeira lágrima enquanto Luis levantou-se sem limpar as migalhas de pão em sua boca. A disciplina no abrigo é rigorosa. O tratamento é simpático, porém não há tempo para muito mais. Dali, recebem uma escova descartável com pasta de dentes e seguem para o banheiro. O nome de Jorge fica cada vez mais presente na narrativa.

Alto, mais magro do que um homem de sua idade costuma ser, o sócio de Luis era solteiro por convicção. Dono de lábia de vendedor, sabia usar as palavras, fosse para oferecer algo que o cliente não precisava ou para agradar ouvidos e mentes de moças que não viam nele algo em especial. Com Luis à frente da loja – era assim que chamavam seu novo negócio, nunca marcenaria – Jorge saía todos os dias da praça da República e aguardava seu amigo ao lado da família Silva, agora resumida a Lorena e as três crianças. Embora o caminho entre a Bernardino de Campos e a Joaquim Távora fosse mais curto do que a distância a ser percorrida por Jorge da praça da República ao mesmo endereço, o vendedor sempre chegava mais cedo que o colega. Luis não dispensava a cerveja de início de noite na São João, em frente ao hospital Beneficência Portuguesa. E quando chegava em casa, lá estava o tio Jorge brincando com as crianças, fazendo Lorena sorrir.

No início, isso não representou problema aparente. Mas com os meses, a situação se agravara. A loja não ia bem, Luis não conseguia suprir as necessidades da casa e ficava cada vez mais dependente de seu amigo e sócio. Jorge, por sua vez, deixara de investir no negócio, mas continuava resolvendo as carências domiciliares da família Silva, fossem elas emocionais ou financeiras – além de quitar as parcelas da anterior, foi Jorge quem apareceu na casa da Joaquim Távora às vésperas da Copa de 82 com uma TV Mitsubishi nova. Cada vez mais, tio Jorge ganhava os carinhos que o Luis pai nunca estimulara. Em 1983, os Silva iam bem de vida. Não havia contas em aberto, a comida não faltava, as crianças estavam felizes e Lorena sentia-se mulher novamente. Havia apenas um ponto dissonante, uma pessoa que não pertencia àquele universo. E seu nome não era Jorge, mas Luis.

Ao sair do banheiro, só há um corredor a ser percorrido pelos que estão no abrigo. O que leva aos dois enormes salões com camas dispostas lado a lado, sem divisórias entre elas. Luis parou antes de tomar o caminho final. O final. Assim é que o ex-bedel, aprendiz de marcenaria, auxiliar de serviços gerais, marceneiro, empresário, desempregado, caixa temporário, vendedor e comerciante define o início de 1984.

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