Temporada de Caça
Até onde sei|Antonio Guerreiro

Era dia. Sentado em frente ao sol ele teimava em permanecer na varanda. O ar era o mesmo do dia anterior, o mesmo ar cansado e pesado de outras épocas em que reinava por ali o grande Benedito, destemido matador de soldados forasteiros que vinham à terra de Juí roubar o pouco que os colonos ainda tinham. Mas isso agora já era parte do passado e o que sobrara era apenas aquele ar que respirava, ainda que dificultosamente.
Olhava o horizonte e tudo lhe vinha à mente: os dias de batalha que começavam cedo com a velha Maria lhe ajudando a vestir a casaca e terminavam em alguma fogueira na região ao sabor de muita cana e aos gritos pela vitória. Aí vinha o melhor, a noite. Mulheres não lhe faltavam, de todas as raças e credos, dispostas a deitar com ele, o coronel. Bons tempos, pensou.
O olhar continuava perdido no horizonte, mas o brilho era outro, era para si mesmo, como se aquela terra já não lhe pudesse oferecer tantas emoções quanto suas memórias. E continuava a olhar para dentro em busca das mais curiosas aventuras. Como aquela em que derrotara um velho e carrancudo “lord” inglês em uma caça à raposa. Não conseguia esquecer a face tensa do gringo ao ouvir os peões o chamarem de velho goiaba. Ah, ah, um gambá passado por raposa. E o inglês acreditou!
Temporada de caça como aquela não haveria mais, porém, se pensasse bem, nem aqueles dias de glória, nem o inimigo, tampouco as festas com suas mulheres. De toda aquela época só lhe restara a velha companheira, que teimava em ser serviçal. Maria, sempre dócil, meiga e preocupada com o patrão, a quem insistia em continuar chamando de “coronér Dito”.
- É, coronel - murmurava para si mesmo na varanda já escurecida pela noite – já fizestes tua parte por aqui.
E suspirou, apagando lentamente a última chama do velho lampião a gás.
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