Um pouco da libido escoa para as dobras de um livro
Até onde sei|Gabriel Kwak

Fiz há muitos e muitos anos um ensaio sensual para as páginas do livro Vie des Termites (1927), clássico de Maeterlinck.
Arre, como ando monotemático, me pego maçante: nesse eterno retorno, retomo uma surrada história que principia com os papiros, passa pelos pergaminhos em direção ao códice. Mas fazer o quê se uma das raras certezas que cultivo na vida é de que a leitura deve ser imperiosa como a comunhão diária católica?
Gregor Samsa nenhum à beira da cama botaria defeito nas minhas proezas e passeios.
Infiltro-me numa apetitosa e desprotegida encadernação de percalina. Estabeleço meu latifúndio entre sua costura e a lombada, não sem antes um rolê pelo colofão e pela página de rosto.
Mediante uma espiada na biblioteca alheia conhece-se muito da personalidade de cada um. Não resisto a saber o que os outros estão lendo...daí porque Gabriel Kwak, escrevedor muito do pernóstico, publicou neste ano Os Livros de Cabeceira: 65 intelectuais do Brasil e seus livros preferidos (Editora Multifoco), a partir de depoimentos que lhe foram prestados por respeitáveis intelectuais. Fiquei sabendo (uma vez que também me acomodo às vezes entre seus livros...) que aprontar essa compilação deu a esse “animal narrativo” chamado Gabriel um prazer poucas vezes experimentado. Sorry, periferia.
Permitam-me que eu me apresente, embora não me alegrem os discursos identitários, gênero aborrecido, aborrecido...Chamo-me Lepisma saccharina, pertenço à ordem Thysanura, do filo Artrópode. Sou dos animaizinhos mais xeretas, portanto...eu sou o inseto que pousou no seu breviário...
Que me perdoem as companhias tão adoráveis – e eu sou um gregário festeiro, com alto coeficiente de sociabilidade -, mas é pela leitura que me reconheço no mundo. Os livros assanham a nossa imaginação, abastecem a nossa consciência crítica, nos tornam melhores. Ganho o dia quando flagro um concidadão sobraçando um exemplar, ainda que seja de literatura de má extração (esoterismo barato, subliteratura envolvendo vampiros, alguma mal-ajambrada literatura espírita...). O venenoso Agrippino Grieco ia a extremos no seu “vício”: “Não vou a casas que não tenham livros: são casas de gente sem caráter.”
O entretenimento fácil, a propaganda e a teledramaturgia subtraem potenciais leitores. Mas entre tantas notícias embebidas em fel, vinagre e óleo de rícino, podemos erguer um brinde a uma adorável ocorrência: o falecido Paulo Leminski desbancou a descartável trilogia 50 Tons de Cinza no ranking dos livros mais vendidos da Livraria Cultura. Podemos suspirar aliviados por alguns minutos...
Impossível ir a uma livraria (ò parque de diversões ideal!) e não se gostar de nada. Comparo uma delas a uma praça de alimentação (que Gabriel Kwak já batizou de “praça de mastigação”). Ou a um tabuleiro da baiana. Tem opção para todos os gostos.
Livros teimam em invadir todas as dependências dos nossos apartamentos cada vez mais projetados pelos arquitetos para não admitirem a insolência intrometida dos nossos “mestres-mudos”. Os volumes, as brochuras – ganhas, compradas ou até mesmo roubadas de algum incauto – multiplicam-se como cogumelos, exasperam nossas (os) cônjuges menos tolerantes com a bibliofilia espaçosa...Saudades dos imóveis de pé direito alto!! Sobram livros até para – quem sabe?- violar nossa privacidade no exílio de nossos water closets, muitas vezes nossos casulos filosóficos...
Todos esses prolegômenos bestas à guisa de profissão de fé para avisar que nenhum veneninho, querosene, naftalina ou processo de desinfecção vai me meter medo...quantas vezes me refugiei entre as estantes daquele desembargador aposentado para vencer interrogações cansadas, queimei pestanas para perquirir a boa música das palavras, banqueteei-me (literalmente...) daquelas coleções para sondar o mistério da vida ou mesmo para uma consulta despretensiosa, típicas do repertório da cultura inútil. Ali, fui desmamado para a maioria dos meus autores mais frequentados.
Inda agora, migrei para um cartapácio ainda inédito, acomodo-me atrevidamente na capa, junto as letras, soletro o título que a encima: Amor a Roma, de Afonso Arinos de Melo Franco, um perfeito palíndromo como o é Luza Rocelina, a namorada do Manuel , leu na ‘Moda da Romana’: Anil é cor azul. Ou como O míssil é belíssimo.
Meu próximo aperitivo será um incunábulo – raridade suprema! – entesourada com ciúmes por um colecionador das imediações. Meu estômago ronrona. Visualizo o livro Il principe dello studiolo. Francesco I dei Medici e La fine del rinascimento florentino, de Luciano Berti (1967), e ele abre meu apetite destruidor.
