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‘Hungria: A Escolha de um Sonho’ humaniza o rapper, mas tropeça no excesso de pressa

Mesmo sem reinventar as cinebiografias musicais, longa encontra sinceridade ao retratar artista antes da fama

Cine R7|Maria Cunha

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Gabriel Santana interpreta Hungria em cinebiografia sobre o cantor Divulgação

A atual febre das cinebiografias musicais parece longe de acabar. Enquanto Hollywood aposta cada vez mais em grandes nomes da indústria fonográfica, como Michael, filme sobre Michael Jackson, o cinema brasileiro também começa a ocupar esse espaço com histórias que dialogam diretamente com a própria realidade do país.

Nesse contexto, Hungria: A Escolha de um Sonho, longa sobre a trajetória do rapper brasiliense, chega à telona apostando menos no espetáculo da fama e mais em uma caminhada construída longe dos holofotes.


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Dirigida por Izaque Cavalcante e Cristiano Vieira, a produção acompanha a juventude de Gustavo da Hungria Neves antes da consolidação como Hungria Hip Hop.

Crescendo na Cidade Ocidental, no Entorno do Distrito Federal, Gustavo (Gabriel Santana) tenta transformar a música em possibilidade concreta enquanto lida com violência doméstica, dificuldades financeiras e a sensação de que o ambiente ao seu redor parece empurrá-lo para qualquer direção, menos a dos próprios sonhos.


Filme acompanha a adolescência de Gustavo da Hungria Neves antes da fama Divulgação

Para quem não acompanha de perto a carreira do rapper, existe um fator curioso: o filme funciona quase como descoberta.

Diferentemente de outras cinebiografias que revisitam figuras já absorvidas pelo imaginário popular, Hungria: A Escolha de um Sonho conta uma trajetória que ainda é desconhecida para boa parte do público. E isso ajuda o longa a encontrar algum frescor dentro de uma estrutura tradicional.


Em entrevista ao Cine R7, o diretor Izaque Cavalcante afirmou que a principal preocupação da equipe era preservar “a essência do Hungria”, especialmente sua relação com a família e com a mãe. E, de fato, são justamente nesses momentos mais íntimos que o longa encontra sua carga emocional mais honesta.

Gabriel Santana sustenta boa parte dessa construção ao evitar transformar Gustavo em uma caricatura do próprio Hungria. Há humanidade suficiente na interpretação para impedir que o protagonista se torne apenas uma versão romantizada de si mesmo.


O ator explicou que, durante a preparação para o papel, buscou fugir da simples imitação. “Era importante os fãs identificarem o Gustavo ali, mas também tinha coisas que o Gabriel podia emprestar da personalidade dele”, contou.

Ramon Brant também merece destaque como Gabiru, amigo que incentiva os primeiros passos musicais de Gustavo e acaba roubando algumas cenas pela naturalidade da atuação. Já Taty Godoi encontra bons momentos como Dona Raquel, mãe do cantor e principal apoio emocional dentro da narrativa.

Relação de Hungria com a família é um dos destaques do longa Divulgação

O problema é que o filme parece constantemente hesitar entre aprofundar sua história ou apenas atravessá-la. Existe uma sensação de pressa que impede determinados acontecimentos de amadurecerem emocionalmente.

Em vários momentos, a narrativa soa como uma sequência de reels do Instagram: fatos importantes aparecem, conflitos surgem, relações mudam, mas tudo passa rápido demais. As informações estão ali, mas falta tempo para que elas realmente criem impacto.

Cristiano Vieira explicou que a equipe precisou condensar diferentes períodos da trajetória do cantor em um recorte da adolescência. “Não dava para contar essa história linear”, afirmou o diretor. A escolha ajuda a entender o ritmo acelerado do filme, que acaba comprimindo etapas demais em pouco espaço.

Curiosamente, Nosso Sonho, cinebiografia de Claudinho & Buchecha — que dialoga até no título com A Escolha de um Sonho — conseguia equilibrar melhor essa construção emocional mesmo trabalhando uma trajetória igualmente marcada pela periferia, amizade e ascensão musical. Ali, existia mais tempo para as relações respirarem.

Filme destaca convivência de Hungria com amigos na juventude Divulgação

Outro aspecto que limita o filme é o cuidado excessivo em preservar a imagem do protagonista. Como a produção foi acompanhada e aprovada pelo próprio Hungria, a narrativa raramente entra em zonas realmente desconfortáveis.

E isso aproxima o filme de muitas cinebiografias contemporâneas — inclusive Michael. Embora sejam produções diferentes, ambas compartilham um problema parecido: reconhecem falhas em seus protagonistas, mas evitam encará-las com profundidade suficiente para abalar a imagem que desejam preservar.

No fim, funcionam mais como homenagens emocionais do que como retratos verdadeiramente complexos de seus personagens.

Ainda assim, Hungria: A Escolha de um Sonho encontra mais força quando abandona a tentativa de construir uma figura idealizada e se concentra em acompanhar um jovem em meio às próprias tentativas de sobrevivência.

É nesse deslocamento que o filme ganha sinceridade, mais interessado no percurso do que no mito. O próprio Hungria sintetiza essa visão ao falar sobre o impacto que espera causar no público:

“A história do Hungria é totalmente baseada em guerra, em cair e levantar”

(Hungria)

O trabalho de som fortalece essa sensação, especialmente na maneira como as músicas se integram aos momentos de crescimento do personagem sem parecer apenas inserções obrigatórias de catálogo musical.

No fim, se o título escolhido foi Hungria: A Escolha de um Sonho, talvez tenha faltado escolher melhor quais partes desse sonho mereciam ser aprofundadas. Ainda assim, o filme está longe de ser um pesadelo — e funciona mais pela sinceridade do que pela profundidade.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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