Carta de um músico que traiu seus instrumentos
A estranha relação de amor que criamos com nossas guitarras, contrabaixos e violão após um showroom da Michael

“A mulher de um músico é a música.”
Foi o baixista Paulo de Carvalho, da banda Velhas Virgens, quem disse isso. Sempre interpretei essa frase da mesma forma: um músico não é fiel a uma única banda, a um único estilo ou a um único instrumento. A música não é monogâmica. Ela é multiversal.
Talvez seja por isso que eventos como o Michael Summit façam sentido.
Nesta terça-feira (4), a marca Michael promove, em São Paulo, um showroom de instrumentos que reúne músicos, professores, fabricantes e apaixonados por guitarras, baixos, violões e baterias.
Há workshops, apresentações e demonstrações de novos instrumentos. Mas, para quem toca, talvez a melhor parte seja a mais simples: pegar um instrumento desconhecido nas mãos e descobrir como ele responde.
Porque instrumentos não se escolhem apenas pela ficha técnica.
Escolhem-se pelo peso.
Pelo braço.
Pelo timbre.
Pela sensação de tocar o primeiro acorde.
É uma experiência que nenhuma foto de catálogo ou review no YouTube consegue reproduzir.
Há alguns meses, estive em uma edição do Michael Summit, em Nova Lima (MG).
Entrei cercado por dezenas de guitarras, baixos e violões.
E fiquei tímido.
Demorei alguns minutos até criar coragem para escolher o primeiro instrumento.
Foi ali que entendi a frase do Paulo de Carvalho.
Tenho três instrumentos.
Um violão Giannini Sevilha.
Uma guitarra Yamaha Pacifica.
E um contrabaixo RockBass, da Warwick.
Meu violão me ensinou a falar.
Minha guitarra me ensinou a gritar.
Meu baixo me ensinou a andar.
Para cada um deles dei um nome.
Fá.
Sol.
E Lá.
A Fá caiu e quebrou o braço.
Sua voz ganhou um calo.
Nunca mais cantou como antes.
A Sol virou uma lembrança da adolescência.
Hoje mora na parede.
É como a prancha de um surfista depois que o mar secou.
Já a Lá...
A Lá me trocou.
E eu, por vingança, troquei o timbre dela.
Arranquei a placa original de Jazz Bass.
Coloquei uma ativa.
Transformei aquele baixo em uma máquina de metal.
Foram sete anos de criatividade absurda.
E de muita autossabotagem.
Naquele showroom, peguei um violão.
Ele cantava melhor que a Fá.
Eu a traí.
Depois peguei outra guitarra.
Traí a Sol.
Experimentei outro baixo.
Traí a Lá.
Naquele momento percebi que nenhum músico pertence a um único instrumento.
Pertence à música.
Mas também descobri outra coisa.
Um instrumento ruim pode atrapalhar o aprendizado de qualquer estudante.
Vocês nunca foram meus instrumentos ruins.
O ruim sempre fui eu.
Vocês apenas tiveram a paciência de esperar que eu aprendesse.
E, mesmo depois de todas as traições, continuam sendo a minha canção.
Porque a mulher de um músico é a música.
✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp












