Elizabeth Bishop é a autora homenageada pela Flip em 2020

Para a curadora Fernanda Diamant, Elizabeth Bishop é antes de tudo uma das mais importantes poetas do século 20

Elizabeth Bishop

Elizabeth Bishop

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A 18ª Flip – Festa Literária Internacional de Paraty anuncia a escritora Elizabeth Bishop (Estados Unidos, 1911-1979) como homenageada em 2020. “Não é uma coincidência que Liz Calder, uma das forças criadoras da Flip, tenha encerrado a edição deste ano com a leitura de um poema dela. A Bishop está em nossa lista de possíveis autores homenageados há mais de dez anos”, diz o diretor artístico Mauro Munhoz.

É a primeira vez desde sua criação, em 2003, que a Flip escolhe um estrangeiro para a homenagem. “Oswald de Andrade e a turma da Semana de 22 já digeriram essa questão do que é arte brasileira muito tempo atrás. Não é por ter sido escrita em língua inglesa que a poesia de Bishop está menos encharcada do Brasil que a de Drummond ou João Cabral de Melo Neto.”

Para Mauro, a escritora cumpre à perfeição a missão originária da homenagem, mais atual do que nunca em 2020 – “fazer a rica experiência da arte brasileira ser melhor reconhecida em qualquer lugar do mundo”.

Para a curadora Fernanda Diamant, Elizabeth Bishop é antes de tudo uma das mais importantes poetas do século 20. “Dito isso, ela viveu mais de quinze anos no Brasil e produziu parte de sua obra aqui, claramente influenciada pela experiência estrangeira e brasileira. Basta ler suas cartas para termos clareza disso”, diz Diamant. “Ela foi também uma importante difusora da literatura brasileira nos países de língua inglesa, tendo traduzido nossos maiores poetas.”

Elizabeth Bishop (Massasuchetts, EUA, 1911-1979), uma das maiores poetas do século 20, concebeu parte de sua concisa obra a partir de sua relação com a cultura brasileira e sua experiência de viver em um país estrangeiro.

Bishop publicou seu primeiro livro de poemas, North & South, em 1946. Acrescida de uma nova série de poemas (A Cold Spring), a obra ganharia o prêmio Pulitzer em 1956. Antes disso, em 1951, a escritora aportou em Santos com a intenção de passar duas semanas, o que acabou se transformando em quase duas décadas em terras brasileiras.

A primeira e principal razão dessa mudança de planos foi a arquiteta e urbanista Lota de Macedo Soares (1910-1967). As duas se apaixonaram ao se conhecerem e viveram juntas até a morte de Soares, em Nova York. Moraram na capital fluminense — onde a urbanista concebeu o Parque do Aterro do Flamengo, ao lado de arquiteto Affonso Eduardo Reidy e do paisagista Roberto Burle Marx — e em Petrópolis, na famosa Casa Samambaia. Entre 1969 e 1970, Bishop voltou ao país, dessa vez para Ouro Preto, Minas Gerais, onde comprou e reformou uma casa, que batizou de Casa Mariana.

Bishop conviveu com personagens importantes da política e da cultura brasileira, como o então governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda (1914-77), além de ter se dedicado a aprender a língua portuguesa e conhecer os costumes e a história do país — sua correspondência é fonte abundante de suas impressões e leituras.

Quem foi

Elizabeth Bishop era bastante erudita, e talvez suas maiores influências tenham sido a poesia de Marianne Moore (1887-1972) — de quem foi aluna e grande amiga — e sua relação fraterna e intelectual com o poeta Robert Lowell (1917-1977). Mas a literatura latino americana — em especial as obras de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Mello Neto — reverberaram profundamente em sua produção. Bishop também traduziu poemas de outros autores brasileiros fundamentais, como Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Oswald de Andrade e Vinícius de Moraes. Coeditada e prefaciada por ela em 1972, a obra An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry — uma antologia da poesia brasileira do século 20, em livre tradução — a consolidaria como uma importante divulgadora da moderna literatura brasileira em língua inglesa.

Depois de voltar definitivamente para os Estados Unidos, nos anos 70, Bishop deu aulas na Universidade de Harvard por sete anos e publicou seu último livro, Geography III (1977). A poeta morreu em Boston, em 1979, aos 68 anos, vitimada por um aneurisma cerebral, em decorrência de anos de alcoolismo.