‘Meu Filho É Um Musical’ revela um Paulo Gustavo além do que conhecemos
Musical que encerra temporada neste domingo (11), mistura humor e emoção ao revisitar a trajetória do humorista
R7 Teatro|Maria Cunha, do R7
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Existem despedidas que a gente não está pronto para fazer. Depois de me despedir de Paulo Gustavo na vida real, eu não queria precisar dizer adeus também a Meu Filho É Um Musical, uma obra que mantém vivo o legado de alguém que ainda faz tanta falta.
O espetáculo chega ao fim neste domingo (11), no Teatro Renault, em São Paulo, depois de transformar a trajetória do artista em uma montagem grandiosa, divertida e, principalmente, afetiva.
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Idealizado por Déa Lúcia e Renata Borges, com roteiro de Fil Braz e direção de Ju Amaral e João Fonseca, o espetáculo percorre a trajetória de Paulo desde a infância em Niterói até a consagração nacional.
Ao longo da montagem, o público acompanha suas relações familiares, as amizades, os primeiros passos na carreira e os personagens que conquistaram o país.
Por trás da produção, há também um desejo que Paulo não teve tempo de realizar. “Ele gostava de musical e a gente já tinha feito Filho da Mãe, que era um musical, só que ele queria aumentar e não deu tempo, então eu resolvi fazer em homenagem a ele”, contou Déa Lúcia.
Para dar conta dessa trajetória, a montagem aposta alto: são 32 atores, uma orquestra ao vivo com 13 músicos, 25 cenários e cerca de 300 figurinos. O resultado é visualmente grandioso, e as músicas originais, além de divertidas, ajudam a conduzir a história sem perder o caráter afetivo.
Mas, acima de toda essa estrutura, está o elenco. Assisti ao espetáculo com Pierre Baitelli no papel de Paulo Gustavo e foi impressionante perceber como ele consegue se aproximar do humorista.
Além da caracterização, Pierre reproduz com maestria os trejeitos, a maneira de falar e a energia de Paulo em cena. Em alguns momentos, é como se estivéssemos vendo o próprio artista novamente.
O mesmo cuidado aparece na interpretação de Stella Maria Rodrigues. Se você guarda na memória a sogra esnobe que ela viveu em Minha Mãe É Uma Peça 3, esqueça completamente. No musical, a atriz constrói uma Déa Lúcia formidável, engraçada e carismática, sem se limitar à versão que o público conhece do cinema.
Milena Machado também merece destaque pela interpretação cativante e carinhosa de Juliana, irmã de Paulo. Sua atuação apresenta uma faceta diferente daquela que o público conhece por meio de Marcelina, personagem famosa nos filmes do humorista.
Valéria Barcellos também é um espetáculo à parte como a empresária de Paulo Gustavo. Ao lado de Pierre, a atriz demonstra se divertir genuinamente em cena, e essa sintonia contagia a plateia.
É justamente essa capacidade do elenco de brincar e, ao mesmo tempo, emocionar que faz o musical funcionar. Meu Filho É Um Musical consegue ser engraçado e emocionante praticamente na mesma proporção.
E há algo especialmente interessante na maneira como a peça trabalha a memória de Paulo Gustavo. É impossível não gostar de rever cenas que já fazem parte do imaginário do público, como aquelas inspiradas em Minha Mãe É Uma Peça. Mas é ainda melhor descobrir um lado dele que talvez muita gente não conhecesse tão bem.
Por isso, se você acredita que não precisa assistir ao musical porque já conhece Minha Mãe É Uma Peça, está enganado. A peça vai muito além.
E, embora não existam exatamente spoilers em uma história como essa, já que a trajetória de Paulo Gustavo é conhecida por todos, é impossível não falar de um dos momentos mais dolorosos da montagem: sua morte, que arranca lágrimas dolorosas do público.
Mas a emoção não se limita a esse momento. As cenas do humorista com a irmã, Juliana, estão entre as mais delicadas do espetáculo e revelam muito sobre quem Paulo era antes de se tornar o artista conhecido por milhões.
É claro que contar uma vida inteira em cerca de duas horas e meia exige recortes. E esse é um dos pontos em que o musical poderia ser mais cuidadoso. A duração pesa em alguns momentos e determinadas passagens poderiam ser enxugadas.
Também há algumas ausências que são sentidas. A amizade com Mônica Martelli, outros trabalhos televisivos realizados pelo artista e, principalmente, a construção de seu relacionamento com Thales mereciam mais espaço.
Outro elemento que nem sempre funciona é o Gato de Botas, figura metafórica que aparece como uma espécie de guia de Paulo ao longo da trajetória. A ideia faz sentido dentro da narrativa, mas, em alguns momentos, acaba sendo anticlimática diante da força da própria história.
São escolhas que não comprometem a experiência, mas mostram que o espetáculo poderia ganhar força justamente com um pouco mais de concisão e com algumas relações desenvolvidas com maior profundidade.
Ainda assim, é difícil sair de Meu Filho É Um Musical sem sentir que se esteve, por algumas horas, novamente na companhia de Paulo Gustavo.
E uma das imagens mais bonitas do espetáculo é justamente a de Déa Lúcia no palco, firme e forte, cantando e ajudando a manter vivo o legado do filho.
A artista também falou sobre o significado de apresentar a montagem em São Paulo, onde vive toda a sua família. “Foi uma emoção diferente, porque eu tenho família, minha família toda é daqui”, contou.
No fim, Meu Filho É Um Musical não é sobre a morte de Paulo Gustavo, mas sobre a vida que veio antes dela. Sobre o menino de Niterói, o filho, o irmão, o amigo, o marido, o artista e o homem que encontrou no humor uma maneira de transformar a própria trajetória e a de tantas outras pessoas.
E, enquanto houver histórias para contar e motivos para rir, ele ainda estará em cena.
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